quarta-feira, 11 de novembro de 2009

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Não havia pensado nos últimos dias sobre "o fim", mas sabia, era necessário ao meu coração de açúcar e mimo sentir-se pesado e fazer todo o drama que lhe cabe. Não chorei, não senti. Apenas fiquei com a cabeça recostada no travesseiro fofo e era capaz de meditar sobre apenas o nome, o nome, o nome. Não podia lembrar, e queria, naquele instante, de um beijo ou do som da voz. Senti um dolorido constrangimento em entender que não havia sobre o que lamentar. Era a perda. A dura e velha perda que vinha diferente agora, com os quilos a mais, as olheiras a mais. Era uma perda nova e insosa, ao revés das desilusões embotadas de mel. O simples nome martelou e martelou e juntou-se a alguns outros. Todos perdas. Embolaram-se, confundiram-se e eu quedei-me quieta no sonho longo. Na cama, além do corpo que recostava-se pesado, a ausência: Não há como perder o que não há.
[24 de agosto de 2009]
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conversa difícil. jogo de sinuca. bola oito na caçapa. 38 na cabeça.

[27 de junho de 2009 ]
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Nicolau e as cenouras.
Tenho três meses e tão pouco conheço desta vida. Lembro dos primeiros dias com outros iguais a mim e caixa de papelão tida como casa. Logo, afastado de mamãe, ganhei novo lar, uma dona e uma "madrinha", casinha fofa, brinquedos.
A casa tinha chão liso, um sofá zebrado. E eu corria, corria, corria de uma sacada a outra arrastando tudo aquilo que pudesse. Com o tempo aprendi que o que as meninas levavam à boca poderia ser saboroso também para mim. Eu, que na minha tenra infância apenas podia provar de ração para filhotes e água fresca, poderia agora sentir o prazer da boa mesa.
Um dia ganhei meu primeiro bocado. Suco fresco de maracujá. Azedo e tranquilizador, me fez dormir dopado como um anjo. Logo, outras frutas vieram: mamão, maçã, pêra, uva, banana. Depois, cenouras. Cada coisa com seu gosto e seu nome, como era de se esperar. Eu, nada bobo, me divertia com os bocados e brincava com os generosos e divertidos nacos.
Porém, numa noite, um moço tocou a campainha e eu, no meu canto, descobri que alguns homens poderiam trazer guloseimas para a felicidade de minhas meninas. O cheiro que saída daquelas caixas e potinhos era sempre quente e salgado. Esperto, achei que aquelas comidas que nunca havia provado, mas que agora podia cheirar seguiam a lógica de minhas conhecidas frutas e da amada cenoura. Eu podia ver: franguinhos, batatinhas, hamburgueres, macarrão... Nhac! Ao morder a nuvem da imaginação, o formato de cada sabor se dissipava na língua em um mesmo adocicado, frio, molhado paladar. Cenoura.
[04 de junho de 2009 ]

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São dois anos. Dois. Um reencontro. São duas pessoas, duas bocas. Duas, não quatro. Dois corações e mentes. Quatro, não dois. Pulmões mais ou menos estragados, línguas mais ou menos ácidas, mãos mais ou menos fortes. Dois peitos, os dela. Dois sexos, de ambos.

Não era matemática como ela gostaria. Era sentimento que não existia e foi sendo cultivado, cultivado. Semente plantada com força no primeiro dia. Regada e revolvida no segundo tempo da terra fofa.

Agora já não podia esquivar-se, ao menos ela, da responsabilidade que sua irresponsabilidade criara. Era amor - ou algo parecido - o que sentia dia a dia. Estava em paz com o espaço, em guerra com o tempo. Porque, na matemática nunca fora aluna exemplar e da adição de um mais zero, teimava e desejava que o resultado fosse dois. E da adição de um mais um, talvez quisesse que o resultado fosse um.

[04 de junho de 2009 ]
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7h58.
Acorda.
Os olhos ainda baços de álcool, tabaco e amor, olha em volta e tenta reconhecer o espaço. Os móveis são escuros, o quarto claro. Está sozinho. Ela o deixou dormir e ele lembra deste instante quando os últimos beijos foram dados e o rosto agora só fazia sentido na memória, pois perdiam-se o traço marcado e os olhos jabuticaba tão físicos há pouco.
Ele levanta, ao lado da cama alguns sapatos, masculinos como os dele. De repente, dá-se conta que ali estavam muitas coisas que talvez não devessem continuar juntas com as dela. Gravatas, pesos de papel, cadernos de anotação. Não pode mais sentir-se presente naqueles cômodos modestos e cheios de um carinho noturno.
Olha em volta, no quarto, sala e banheiro. Não toca em sequer uma peça, mas presta atenção em tudo que a vista, por si só, pode alcançar. Doem-lhe os olhos, mesmo que egoísticamente, mesmo que sem propósito. Doem-lhe. Doe-lhe pensar que invadia, doe-lhe tanto resquício daquele amor.
Arruma os sapatos pretos que haviam estado por toda a madrugada no canto do sofá, coloca as calças e ajeita a gravata que trazia. Vai até o banheiro e lava o rosto marcado pelos travesseiros. Caminha e gira a chave na fechadura. Dali para a frente, é incógnita.
[29 de maio de 2009 ]
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Não sei o que fazer com meus rompantes, assim como não posso resolver o problema da roupa suja que se acumula.
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Compulsiva.
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Me enterrei. A terra era fofa, porém a superfície era tomada por crateras secas. Terra rachada de sertão. Afoguei-me naquele mar de grãos e não mais pude voltar a superfície e respirar com cuidado. Eu, mais uma vez, apostei na leveza, mas a verdade é que meu coração de chumbo não suporta tanto vazio.

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A alegria do dia veio faceira e mutável. Era afeita às químicas que devendam imagens. No parco espaço cabia os olhos puxados e sorridentes, cabia também o coração puro de Ogava.
[21 de abril de 2009]
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O livro na estante. Não era.

O livro sobre a cama. Também, não.
O sorriso continua o mesmo, assim como o tom da pele, da voz.
Os cabelos tem agora mais fios brancos... as unhas continuam roídas.
Mudamos, como disse ele. Mas algumas coisas, algures, nunca morrem.
[27 de janeiro de 2009 ]
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Manhã de segunda, o dia nasceu como eu.
Claro, frio.
Mãe tinha razão quando dizia: mãos quentes, coração frio. Hoje, frio cortante, gelo sobre o passeio, não coloquei as luvas. As mãos queimavam.
[15 de dezembro de 2008]
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Era frio: Que doía.

Era choro: Quente, soluçado.
Era palavra: Verdade inconveniente.
Era beijo: Suspenso.
Era futuro: Covarde.
Era presente: Triste.
Era passado: Curto, intenso, feliz.
Era desejo: Inconcreto.
Era vergonha: Indigna.
Era dignidade: Perdida em um canto do quarto.
Era carinho: Robusto, complexo.
Era olhar: Embaçado.
Era língua: Bêbada.
Era. Foi.
[13 de dezembro de 2008]
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Errei um erro confesso, indecente.

[11 de dezembro de 2008]
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Os olhos portugueses me espreitam

Correm pela pele branca, pela carne rosa
Os olhos portugueses são doces

Pastéis de Belém e Santa Clara
Os olhos portugueses pedem
Brilham, são lascivos.
Plumas pesadas em doses certeiras.

Os olhos portugueses conquistam
Arrancam pedaços, estrangulam desejos.
Os olhos portugueses fizeram coração sorriso
Passo correto para a felicidade instante.

(Para Süß).
[01 de dezembro de 2008]
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Vivo condenado a fazer o que não quero
Então bem comportado às vezes eu me desespero
Se faço alguma coisa sempre alguém vem me dizer
Que isso ou aquilo não se deve fazer
Restam meus botões...
Já não sei mais o que é certo
E como vou saber
O que eu devo fazer
Que culpa tenho eu
Me diga amigo meu
Será que tudo o que eu gosto
É ilegal, é imoral ou engorda
Há muito me perdi entre mil filosofias
Virei homem calado e até desconfiado
Procuro andar direito e ter os pés no chão
Mas certas coisas sempre me chamam atenção
Cá com meus botões...
Bolas eu não sou de ferro
Paro pra pensar
Mas não posso
culpa tenho eu
Me diga amigo meu
Será que tudo que eu gosto
É ilegal, é imoral ou engorda
Se eu conheço alguém num encontro casual
E tudo anda bem, num bate papo informal
Uma noite quente sugere desfrutar
Do meu terraço, a vista de frente pro mar
Mas a noite é uma criança
Delícias no café da manhã
Então o que fazer
Já não quero mais saber
Se como alguma coisa
Que não devo comer
Se tudo que eu gosto
É ilegal, é imoral ou engorda
Se tudo que eu gosto
É ilegal, é imoral ou engorda
Será que tudo que eu gosto
É ilegal, é imoral ou engorda

Robertão é um gênio!

[06 de novembro de 2008]
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Se fosse um 'poeta' romântico, a despedida seria:

"Nos dias frios de abril, não pude ser feliz
Quedei-me nos andares baixos, numa escada sem degraus.
Nos dias quentes - foram poucos - além do sol ladino
batia nos olhos, olfato que se vê, lufadas podres daquele rio morto.
Eu já não tinha viço. Eu já não tinha minhas horas necessárias".

Eu, apenas.

O coração dói. Bangunçado em um devaneio.
Na corrente vermelha era só misto de angústia, sorriso e uma tristeza rouca.
Para trás a metrópole: seus carros, desentendimentos, acasos.
[provavelmente entre setembro e outubro de 2008]
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Ele tinha os dentes bons
Roupa nova há três dias no corpo
Sobrancelhas salientes
Alguns quilos a mais.
Nada disso o fez mais másculo,mais desejável.
Mas, mais uma vez perdi o medo.
O sol da manhã nasceu sorrindo, atrás das nuvens.
E eu aqui, desfazendo os nós sob a chuva.
[provevelmente entre setembro e outubro de 2008]
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É preciso correr atrás de ônibus
Ver malabaristas nos sinais
O halo de poeira sobre a cidade
É preciso contar moedas
Sorrir sem querer, evitar atropelamentos
Aprender em um dia a viver completamente.
[26 de agosto de 2008]
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Brinca com luz.

Joga,
logo mais sai correndo
O obturador parado num centésimo do tempo
Reescreve dias,
cores, caras, sentidos
Redesenha a cidade,
os beijos e becos
Não dá-se conta da não luz que passa rente,
espreita
Tem roupa cheirosa de bom dia
Rosto marcado de juventude
Um coração suave de vento.
[26 de agosto de 2008]
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Minhas mãos estão preguiçosas. Na verdade , todo o ano passou assim. Tive poucas ganas de sentar e deixar o pensamento correr. Agora é tarde. Os olhos pela manhã estavam cerrados, mesmo que tentasse abri-los não havia maneira. Passei a mão pelas pálpebras e lá estava a causa: dois riscos, um para cada olho.

Não pude chorar, gritar de horror pela negrura da manhã. Não pude. A escuridão era cadenciada e, até certo ponto, conveniente. Talvez fosse tudo o que eu havia procurado. A visão negra de horas tristes.

Sentei-me na beirada da cama, tateei o chão com os pés e encontrei os chinelos. Caminhei como se a cegueira houvesse me acompanhado há muitos anos. Acendi as luzes do banheiro como se a claridade fizesse diferença além da sensação de quentura.
[19 de novembro de 2007]
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Se um é a perfeita fusão de duas metades,

nós homens somos selvas de metades
em eterna busca da impossível união.
O amor é a ânsia constante de chegar ao um,
mas se existisse o um seria a negação do amor.
Morremos sós, como metades sós.

Frederico Garcia Lorca.
[20 de maio de 2007]
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Aconteceu assim, como? Na verdade eu não fiz questão de guardar com precisão na memória já gasta. Talvez, dessa vez, não quisesse consciência do dia e dos minutos que se seguiam, talvez dessa vez, tivesse eu criado uma carapaça que recobrira as pontas dos neurônios evitando a sinapse que levaria a lembrança, por medo, puro e simples de ter que conviver apenas com o recuerdo por algumas semanas.

Mas, a despeito da mente, os dedos e olhos fizeram o favor de registrar o tempo curto entre o desconhecido e o amor próximo. Ele tinha uma tatuagem no ombro esquerdo, grande e cheia de um rugido rouco. Tinha cabelos cacheados, como o amado de outrora. Tinha dentes marcados de nicotina e uma barba rude a ser feita. Tinha dedos gordinhos nas mãos e os pés bonitos, assim como os ombros, assim como os olhos. Uma fala forte e doce, cheia de uma sutileza de nenúfar.

Ele, foi sincero. Eu, fui fugidia e, apenas desta vez, deixei o orgulho de lado e entreguei os lábios a ele. A história começou numa noite lancinante de sexta-feira. Era uma casa desconhecida, pessoas desconhecidas e uma sombra azul projetada na sala de entrada. Ela, a sombra, guardava cada movimento da casa e guardaria mais tarde o enroscamento de corpos perpetrado pelo casal inusitado.

Ele chegou depois de mim. Eu fui para uma despedida de um cara que mal conhecia. Ele sorriu e guardou dentro de si o olhar que eu despejei feito espuma pelo quintal imundo. Ele e eu conversamos sozinhos num canto mal iluminado e depois de alguns minutos nos separamos, tomamos caminhos opostos. Ele, rápido, tomou-se por completo, tornou-se distante nos braços da menina de saia branca e mãos de cientista. Eu, resistência derradeira, afoguei os olhos em um copo com gelo, gelo para esfriar as tripas, as entranhas.

Fim de noite, um a um todos foram para suas casas, seus refúgios, suas bocas, suas traições, seus colos. Um a um, novos amigos tornaram-se estranhos novamente, porque dali pouco, quase nada, seria guardado na memória. Na vitrolinha rodava um som que ela desconhecia e ele, já órfão das mãos de pipeta e kitassato, cantarolava.

Nós, sentados, lado-a-lado nas cadeiras bambas ficamos falando das estrelas e apontando-as, sem medo de que verrugas nojentas brotassem nas pontas de nossos narizes perfeitos. Uma frase, daquelas clichês de quem troca o certo pelo duvidoso e eu me rendi, alheia de mim, a ele, seguro e voraz de si.

Começou, sem porque, a história de 24 horas unidas e sempre, mais juntas em apenas 72. Juntaram-se, colaram-se, atracaram-se no calor absurdo da cidade que acalorava os corpos. Juntaram-se, uniram-se e, sem pensar que as horas conhecidas eram realmente poucas, fizeram-se um, como se de outras vidas ali regressassem, como se de muito tempo ali se reencontrassem.
[12 de abril de 2007]
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Trocaram-me por um punhado de solidão. Era quinta, fria e docemente convidativa a apenas uma cama. Trocou-me sem pensar duas vezes por dois copos ou, quem sabe mais, de cerveja, cerveja que naqueles dias decia amarga e gelada demais, chegando a espumar em partículas de gelo. Eu, fiquei entregue a um sono livre de pesadelos, enquanto ele, cabelos enrolados agarrou a garota com nome de anjo pelo pescoço e encostou-a contra a parede de chapiscos, torturando as costas, torturando... Deixando marcas roucas na pele escura.
Nesses dias, eu estive empregnada de uma prenhês, certa, porém, de que ela fosse, como das outras vezes, puramente alusiva, puramente imaginativa. Medo antigo de uma maternidade cheia de entremeios de pobreza e carência. Na sexta, ele se colocou de joelhos perante a mim, mas não pôde dizer qualquer coisa sobre sua traição convidativa. Os olhos diziam, sem pesares, que deglutira com grande prazer a saliva e o gosto dela, mas que pouco se recordaria dos fatos...
Pude então de toda forma dizer que sabia, havia nada.
[16 de março de 2007]
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Era um mundo paralelo, onde uma ninfa de azul voaejava por sobre outras divas. Nesta terra gnomos saltitantes e amores de outrora tinham uma força imensa. Eles tomavam uma espécie de pão líquido e fumavam arguile. Todos ficavam felizes. A terra agora só durava quatro dias.
[08 de fevereiro de 2007]

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Quase 48 horas de uma loucura mansa, Cris ali jazia, quase alma na cama descompromissada de Ubaldo. Eles se desconheciam e se tinham a pouco mais de quatro horas e ali já estaria findo o relacionamento. Era grande o vazio que ficara entre as coxas, era grande o prêmio ali depositado e rejeitado logo mais.

Saíram de uma festa com luz negra, velas e muita cerveja, nem amigos em comum tinham e por medidas de segurança não envolveram mais que os corpos naquela conversa fragmetária.Um dia antes Cris estivera desbotada em um quarto cheio de coleções, ali encontrara por um momento tudo o que procurara em outros braços, seria um amor verdadeiro e nada apático, o nome bonito: Fernando.

Ele fez cicatrizes com a barba em sua pele alva e um buraco imenso no estômago, daqueles que ficam pedindo o revés, a outra face do dia seguinte.

Mais uma vez Cris perdera as estribeiras da vida e deixara o coração esbranquiçado de nuvens que encobriam a hora exata que os fatos aconteceram... Sabia apenas que fizera a escolha errada mais uma vez, e que a escolha certa não a queria novamente.

Acho que amou Fernando com a intensidade de todos os dias que ainda seriam vividos, Ubaldo foi um caso, um caso que ela espera não frutifique.

[04 de dezembro de 2006]

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Era esta a hora, 23h21. Saía de casa apressada com um laço de fita pregado ao pescoço. Andou muitos quarteirões e pousou os pés porta adentro em uma espelunca em tons White Stripes, ela fita vermelha, ele humor negro.
Passadas as primeiras horas já era madrugada, conversou sobre o blaiser e o blasé. Tomou copos com álcool e sem. Encontrou amigos virtuais e que eram tão carne-osso como os osso-carne alí ao lado.
As companhias iam da morena com a bunda e o coração grandes aos irmãos separados em sêmens diferentes, camas, partos e cidades diferentes e tão iguais. Dissílabos os dois, engraçados os dois, bêbados e risonhos os dois.
Banda (?) no palco, duas guitarras e uma levada. Música eletrônica sampleada como base e um pulo nas pernas dançantes que se animavam com a noite e deixadas pela languidez do som se depositavam em cadeiras de plástico branco, dispostas sem ordem pelo ambiente. Música boa, mas não para aquela hora, propícia às horas mortas do dia, em que se quer cama e reflexão.
Quase meio de madrugada, esperanças perdidas nas conversas folgadas e agradáveis, nos novos amigos inconvencionais, na música que voltava à vitrolinha. Esperanças perdidas e cheias de um cheiro de não coincidência.
Ele pôs o pé na soleira, ela não viu. Ele levou a mão à boca e piscou quatro vezes os olhos em busca de alguém, direçoes multiplas. Ele virou o rosto na direção do laço de fitas e olhou, olhou, olhou e mergulhou em um torpor, quatro segundos.
Ela sorriu em adeus a alguém, ele não viu. Ela umideceu os lábios despretenciosamente e passou a mão pela testa. Ela deu de ombros a um cometário e ergueu o olhar em direção à porta e quatro segundos foram suficientes.
Horas depois e a história teria a primeira página escrita, frase a frase. Sem final definido e com espectativas de felicidade...
[22 de outubro de 2006]
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Conservantes.
Não queria mais guardar a base de naftalina aquele amigo antigo. Amigo não, amante esporádico que vez por outra fedia mofo. Juro, juro que não queria, mas ele ficava em uma das gavetas da memória, as mãos cheias de bolinhas brancas.
Afora mais de 200 dias da última aparição real, as outras pairavam hora em tons pastéis, hora em tons vivíssimos sobre a janela que fica atrás da cama. A cama não era a mesma, nem a janela. A que nos olhava era mais alta, mas indiscreta, essa agora não tinha vizinhos curiosos, tinha sequer vizinhos.
Fato era que as naftalinas me incomodavam, entravam na mente sem memória, cheia de obsessões. As bolinhas conservavam uma barba, cavanhaque às vezes, às vezes nada; conservavam cabelinhos cacheados e um sorriso maroto e difícil. Ah, como eu queria esmagar as naftalinas com a ponta dos pés de uma vez para sempre, a viagem para a Alemanha ficaria com bagagens mais leves e itinerário menos diluídos por países não germânicos.
Ah, malditas naftalinas. Tentei trocar seu perfume infernal por outros, mas não pude. Mesmo aqueles cheiros que mais me agradavam tinham agora um ranço que me mantinha longe, razão desconhecida. Você, outro lado do planeta me tratava mal, tardiamente, esquecia de dizer bom-dia às duas da tarde, ou boa-tarde às dez da noite. Diacho, quantos dias eu dediquei à apreciação de naftalinas?!
Em falta no mercado por uns dois ou três meses, a abstinência se manifestou logo. Enfiei na cabeça que poderia superar o vício que tomou conta de meu cérebro e coração há quatro anos. Infelicidade, tremi por noites e dias e até me convenci curada. Certa madrugada, peguei a mim, era o espelho do banheiro quebrado, caco sobre a pia, mão sangrando. Sobre a parte repousada no resquício de água ficava um pó branco, naftalina. Inalada, não fazia mais efeito! Não fazia! Tamanha a falta, uma pequena dose não poderia suprir minhas entranhas, quem sabe eu tenha imaginado o espelho quebrado e a saciedade buscada.
Naftalina importada! Quero naftalina importada! Importada! Mandem buscar a naftalina espanhola, gosto de paella, gosto de gaspaccio, miga, chupito, absinto e comida fast-food nojenta. Quero, quero, quero como criança mimada e solitária que fui, meus desejos atendidos agora! A ilusão de conseguir seguiu-me durante anos, voltou agora com toda força: Dei-me conta de que nunca possuí os brinquedos que queria, o ponei e o biboquê, a casa rosa da boneca e os milhões de sapatos... Teria sorte agora... Mal remunerada no trabalho escravo (!) fiquei na naftalina nacional, havia formol e mais umas 400 drogas imbutidas na fórmula, me atirei do viaduto do chá, imaginário, claro. Nem em São Paulo pude estar em meu último suspiro.
Conservantes.
[04 de outubro de 2006]
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Fechou a janela pela última vez. O corpo jazia sobre a cama, ainda sem roupas e sem os preparos para o funeral que aconteceria daqui pouco mais de catorze horas. A família toda estaria na pequena cidade em questão, também, de horas.

O velho patriarca morrera no hospital, sob olhar do genro que havia dormido todos aqueles dias na cama ao lado. A filha ficara com a neta em casa, a menina era ainda criança e a mãe tentava poupar-lhe o sofrimento de ver o avô nas últimas horas. Estava ele desenganado em seus 89 anos.

Foi numa noite nem fria, nem quente, daquela cidadezinha pacata que há mais de cinqüenta anos escolhera morar, que seu corpo jazia agora, sobre a cama. O quarto cheirava às flores que ali não estavam e no ar pairava uma música que tantos cantaram e que agora era de uma mudez invencível.

Vestiram-lhe o terno preto e a gravata de seda chinesa cinzenta, um terço de contas também cinzas, sementes e penduricalhos religiosos ficava enrolado nas mãos juntas, e ele ainda era tão bonito.

Naquela noite, a neta que dormia na cama da mãe acordou num soluço – O Vô morreu. Disse. A mãe com o coração apertado tomou-a nos braços enquanto o telefone tocava anunciando o quase óbito que se seguia. Ficaram as duas por um momento quietas e num choro convulso ouviram no quarto, que hora e meia depois abrigava o corpo inerte, um som de chuva que passava logo e ia feliz deixando a terra molhada.

Tudo pronto, os chás quentes nas garrafas e os cafés, algumas bolachas de sal e fatias húngaras para ele que não podia com doces. Envergado o negro, os lenços, os abraços iam seguindo até o último parente chegar, já passava das quatro da manha. Frio.

O corpo deixando aquilo tudo insoso, as pessoas com olhares tristes e amofinados até que se ouviu uma risada doce, duas crianças a rir, no fundo do velório, atrás das velas e coroas.
Os pais, os tios, olharam com desgosto para os pequerruchos ali, mas no fundo pensaram que o morto, ali estaria rindo com os olhos, se vivo. Ninguém soube, porém, que quem causara a risada sossegada fora o velho de bondade infinita e pulso firme que ali jazia.

Atrasado o enterro para a chegada da extrema unção pelo padre escolhido, ficara para as dezessete horas a descida do caixão. Tristes choraram filha, genro e neta, mais que todos. E numa pobreza esquizofrênica deixaram cair algumas flores sobre o tampo escuro do féretro.
Todos numa procissão deixaram o terreno santo ao cair do sol e do rosto que não mais veriam. Chegando à casa que o velho habitava com a filha, o genro e a neta, todos os parentes sentaram à mesa. As crianças que riram tão despropositadamente foram ao quarto da neta e ele, também neto, deitou a lembrança daquele dia num desenho: o sol quase posto, e pessoas palito saindo por uma rua onde as cruzes passavam e olhavam.

Anos depois, veio o avô povoar os sonhos da menina e acariciar seus cabelos quando estava só. Amores não morrem.
[09 de junho de 2006]
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Simples:

Meu coração não cabe neste caixa de sabão em pó
Nem a alma faz parte destas guias sem pedestres e carros...
[27 de maio de 2006]
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estou entrando em estado de coma

comer ou deglutir, eis a questão?!
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-falta tudo aqui do lado
menos o que tenho nas mãos
________

-sonhos mortuários vem me visitar
fica o medo de pegar carona
___________

-perto é longe
longe é mais longe ainda
______________

-os músculos forçados pra evitar o coração em desconsolo
[26 de maio de 2006]
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Ele abria seu coração aos poucos, esfinge que era, falava meio por ritmos, meio por gestos. Ficava esperando a hora passar quieto, as mãos metidas nos bolsos da jaqueta marrom - ou jeans - que insistia em usar, ou na maior parte das vezes, a segurar um copo pequeno com uma bebida destilada dentro. Ficava ali dando sorrisos, e ali poderia ser qualquer lugar, a frente da janela dentro da cozinha, os balcões sujos dos bares que buscava sem imaginação ou mesmo algum feixe de lençóis perfumados por cheiros adocicados e inebriantes. Seu coração falava sim, aos poucos, aos poucos mesmo, dizia sem pressa entre um sorriso e outro que as coincidências lhe diziam muito. Dizia que a calça dela era bonita e que não poderia amá-la vestindo meias brancas, listradas, quais quer que fossem. Falava marcadamente de cada um que conhecia e fazia parte de sua existência esplêndida, cheia de uma luz de penumbra e uma voz de crônica. Gostava das noites e mais ainda dos que nela habitavam, via nos andantes noturnos o que a felicidade representava, o que a tristeza, o que a vida. Numa das vezes que tentou abrir a boca, foi mais feliz ao usar as mãos, sempre quentes, para dizer que dela gostava, que se preocupava... Ou seria uma impressão provável... Nos diz-que-me-disse da vida, diante de seus olhos menos brilhantes, também diz que disse a alguém que aquela história era sem pé nem cabeça, isso disse com a boca, sem sorrisos tortos e sem olhares diretos. Não sabe ainda se foi sincero, porque diria, sempre e mais tantas vezes o contrário: a cabeça da história e o pé eram parte de uma trama que flutuava num mundo à parte, mundo que voltava periódico, geralmente no mês casadoiro de maio.

Era assim, quase sempre e até longe. Olhava a vida com um ar de desesperança que se tornava vida, olhava a vida com um ar de quem passou por ela muitas e muitas vezes. Para os outros, mais próximos era por vezes um louco que consumia muito álcool e algo mais em determinadas ocasiões, soltava frases insólitas, soltava comentários ácidos, soltava um bafo quente de cachaça tão naturalmente brasileira. Para os não próximos era pálido, esguio, meio languido quem sabe, ou a descrição seria a de um poltrão, quem sabe um excêntrico desventurado e cheio de pouco senso de humor e pouca frase na ponta da língua, língua essa que se metia na borda do copo ou dentro da boca (sua?!). Mas seria assim... Ficava entre a pergunta e a constatação distante. Seria o que pouquíssimos viam, seria a caricatura de sua próxima face. Estava naqueles dias distante dos olhos da moça que passava por ele no balcão do bar, estava distante do bar, aquele de sempre, pelo menos, estava ouvindo línguas diferentes e criadas em parte por sua embriagues verde. Seu cheiro, porém, não deixava os antigos lugares e as antigas paixões, os olhares que ele dirigia via as mesmas coisas em coisas diferentes e os cheiros eram cheiros de dar água na boca, dar água nos joelhos, nas mãos, nos pés, nos ouvidos e ele gostava imensamente daquelas sensações absurdas de sonho que o perseguiam desde a infância e agora eram mais fortes por alguns fatores externos. - Eu sempre me sinto só e trago restos comigo, restos daqueles para quem entrego pedaços de minha própria carne. Eu sempre digo sempre, porque em todas as horas sinto falta de algo que não compreendo, são faltas diferentes vertidas numa mesma imagem que vem bestamente entre frases que não combinam. Nessas e noutras noites, manhãs ou tardes, todas madrugadas os sonhos perturbam minha mente já não tão cheia de calmaria. Vejo rostos e sinto corpos de um passado que não pude ou quis viver em plenitude, sou um homem ao meio, metade felizmente encontrado nas amarguras do espelho, metade a perder-se ainda.
Um dia, porém, disse com a voz forte e doce, que tinha e que quase nunca se ouvia, que ela o conhecia mais que tantos, talvez o conhecesse pleno. Ela fez cara de que não entendera, fez uma cara “ta me gozando”, mas ficou com a frase na cabeça por anos. Ele não diria isso de graça, posto que cobrava muito caro por suas intimidades, pagava-se com moeda corrente de desconsolo ou solidão posterior e como troco recebia-se a certeza de um reencontro gauche. Matemática, odiada, nenhum ponto era feito sem medidas as conseqüências, verdade sem cerne, mas parecia que matemáticas e coincidências se seguiam periódicas na vida dele, quem sabe dela. Períodos de tempo, das palavras, das ações se repetindo e repetindo. Numa dessas repetições friamente calculadas por algo além dele, as palavras saltaram de sua boca em direção àquela menina com quem cruzava no bar. É, elas não saíram assim por acaso, ou saíram? Mas o caso é que estavam num lugar que não o bar. Ele a olhou nos olhos o mais fundo que podia, lançou as palavras no ar e elas pairaram com o gosto do beijo que se seguiu. - Ela sabia muito mais sobre mim do que eu gostaria, ela estava mais perto da distância imposta pela fatia de película fotgráfica que eu levava no bolso, já gasta e com uma imagem quase indecifrável. A película trazia a verdade de meus dias. O eu, o eu infante que ainda estava nos pêlos do meu braço pouco forte. Ela, sei eu, sentiu o sabor do que eu sou de verdade e por isso não a tiro de meu caminho como faço sempre. Ela volta, mês de maio, não?! Mês de maio, às vezes, mas volta quando eu quase esqueço, volta quando eu ainda dela faço precisão e não daquela matemática de que fujo e sou prisioneiro. Ela vem e senta-se na mesa da casa em que habito sozinho e feliz, senta, cruza as pernas fortes que me enlaçam com um movimento tênue e não me alcançam, sorri e olha, olha, olha, olha por dentro, mesmo não sendo ela é ela quem me vê. Simples assim, como o roteiro que não posso escrever ou o sonho que aparece agora, depois de tantos anos de trégua.
[20 de maio de 2006]
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Who Loves the Sun

Who loves the sun
Who cares that it makes plants grow
Who cares what it does
Since you broke my heart
Who loves the wind
Who cares that it makes breezes
Who cares what it does
Since you broke my heart
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun
Pa Pa Pa Pa
Not everyone
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun
Who loves the rain
Who cares that it makes flowers
Who cares that it makes showers
Since you broke my heart
Who loves the sun
Who cares that it is shining
Who cares what it does
Since you broke my heart
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun
Pa Pa Pa Pa
Not everyone
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun
Sun
Sun
Sun
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun
Pa Pa Pa Pa
Not everyone
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun

(Velvet Underground)
E para os acasos: I got you under my skin.
[15 de maio de 2006]
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- Eu tentei, juro! - Gritou desesperadamente a garota pela janela do quarto. Só ouviram as paredes, os muros, os gatos pardos e as janelas que abrigavam a visinhança adormecida.

Murmurou depois: - Eu juro, eu juro, eu juuur...
E pensou: Juro que tentei deixar pra nunca mais...
Quilômetros menos quilômetros nas noites próximas em letras... Amarrada terrivelmente num castigo prometeu. Fez promessa para o santo das causas impossíveis e acendeu uma vela durante a terceira parte de sua saga. A vela apagou, seu desejo não foi atendido e ela ficou a olhar as constelações pela janela do quarto, imaginando como seria o céu lá!...
[15 de maio de 2006]
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Fui catando parte de cada um que deixei
catando como os milhos amarelos que as galinhas pintadinhas deixavam

Fui recolhendo restos de mim
e meus melhores acasos

De cada dia um novo eu,
amanhã, mais velho
[23 de março de 2006 ]
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testamento

deixo os meus passos cor-de-rosas
cascos quase tartaruga...
deixo minhas mãos vermelhas
rugosas de juventude
deixo rasgados meus desenhos
deixo a dúvida e a voz do outro lado da mudez.
deixo nada mais
pois a inexistência é o que me resta
deixo cores imperfeitas que não são eixos
e do divã esquecido levanto
e do vidro polido desvio
até parar do outro lado,
qualquer que seja...
[10 de fevereiro de 2006]
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Dói por dentro o que vem fora
Dói terrivelmente a partida de cada parte rara da casa e do peito
Fica cá, comigo, entre as unhas um espaçamento vago de canto interminado
Fica ali, longe a voz seqüenciada da rotina que se quebra
Esteve pensando nas janelas e nas quinas da sala de jantar
mesa e cadeiras de vento e velas sem fogos e luzes
A casa ficou vazia do dia para a noite marcados
A casa ficou, sozinha
[ 18 de dezembro de 2005]
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Nuvens escuras.
- Hoje vai chover...
- Isso... isso... você sempre fala sobre o tempo, né?! Senhor aviador...
Ele sorriu a boca larga de sempre os olhos vivos de sempre.Saíram, o carro deslisou manso pelas ruas incomuns da zona sul da cidade. Ela reparava nos bares amarelos que não mais freqüentava, no prédio verde desbotado, familiar, do lado esquerdo da rua... Na conversa fácil que sempre tiveram as distâncias sempre eram próximas e as horas não custavam horas a passar.
- É aqui, 878...
Na mesma sílaba inconclusa do último número o toque das rodas em um ponto final do asfalto. Desceram, pegaram as cervejas e foram à portaria do prédio modesto. Lá, festa. Entraram, rindo e fazendo uma "cena" como gostavam à muito... Diziam que entrar brigando em uma despedida do amigo dela que partia e onde poucos eram conhecidos parecia digno de nota e execussão, na porta dissuadiu-se o pretendido. Todos já bêbados, felizes e chorosos, fotos e palavras fáceis. Recostaram-se à janela. O assunto corria entre príncipes de Bahen e cotonetes sujos, qualquer coisa era fala.
Meia hora e não mais agüentavam a festa tediosa. Beijo e abraço, mais beijo e amores daqueles de fraternidade nas mão grandes do amigo que partia e cinco cervejas na sacola. Desceram sorridentes no elevador lento e lançaram os corpos para o carro quente, próxima parada, uma casa de mulheres.

Elas estavam todas ali com seus sorrisos largos e copos e garrafas diferentes - a irmã, mais querida entre todos os mais queridos - despejada sobre o sofá azul tão familiar destilava palavras de açúcar a cada novo traço de magia que seus dedos longos de fada podiam desenhar sobre o ar seco da noite.
Ficaram por lá alguns minutos entre recordações e novas promessas de festas e vidas, entre goles de Cuba Libre e idas regadas à cerveja ao banheiro parcamente limpo, incomum. Ele a olhava terno e lançava as sandálias longe, as quais ela conseguia deter com o dedo maior do pé branco, ficavam sozinhos na sacada e viam a rua quieta mover-se em passos de betume e sarjetas de cristal. O olhar brilhava, farol magro da noite. Tomaram, beberam, sorriram muitas vezes...
Meia-hora mais ou menos e estavam à caminho de uma casa de loucos felizes. Saíram do apartamento, ele e as cinco ninfas de chuva e tempestades mais fortes, caminharam três quadras e transpuseram a porta de madeira da casa antiga em marrom e beje. Entraram numa efusão de abraços e saudades, de sons, cachaças e fumaças naturalmente refletoras de sorrisos do ambiente. Naquela sala de homens em meio a cadeiras, sofás e mesas rotas, garrafas e pedaços de papel pelo chão de tábuas corridas ficava encrustada a sensação de delícia e fugacidade que os ébrios e fanfarrões mais felizes podiam almejar por um dia. O casal de amigos, envergados pela noite, fez de uma cadeira a reprodução perfeita do colo de mãe, ela envolvia a cintura do aviador com mãos de brigadeiro e ele deixava o peso dos ossos e olhos cair sobre as coxas fortes dela. Pouco depois, suas mãos correram ágeis e fortes pelas costas cansadas da menina, levantou-se e massageou cada nó tenso e ela entrou em uma dimensão louca que misturava aqueles cheiros e toques...

Antes dos dez próximos minutos o tempo havia parado em uma dimensão de felicidade, até que o telefone insone tocasse e destoasse a noite, não haveria mais festa... Saíram, o aviador e suas cinco mulheres, companhias de uma noite. Entraram apertados no carro azul e rodaram até o bar Jubiabá, sentaram em uma mesa, cortesmente oferecida pelo garçom amigo-simpatia que tirava as cadeiras, já guardadas, de seu sono e trazia cervejas estupidamente geladas aos novos amigos que brindavam as histórias e conflitos entre homens e mulheres. Gritaria, gritaria, descententes de povos com fogo nas artérias e línguas de aço, batiam-se os dentes e as línguas em uma discussão inflamada que chamava a atenção de todos que ainda permaneciam no bar.
- Porque... homens fogem de mulheres interessantes... Quero ver você negar isso... - Repetiam em coro as cinco garotas da mesa, coagido o aviador concordava entre os gritos de vitória da mulherada.
Alguém tocou o ombro da garota que juntara a turma inusitada, apanhou o ombro com força e levantou a carne retesada um pouco, ela custou a olhar, quando virou percorreu da mão ao braço familiar, a camiseta básica e a pele alva... Chegou à barba fechada e densa que passeara por vezes em sua pele delicada de vidro.
- Vim falar tchau...
- Mas por quê?! Eu deixo a cidade só pelo dia 20...
- Não... Estou indo embora do bar...
- Mas você não vai para o Valentino?
Ele já saíra, deixando um beijo quente no rosto dela, apontando na direção do último bar da noite, mais algumas garrafas e sairiam à última paragem.

Confusão para deixar cada troco com seu dono, o álcool fazia o pensamento rápido e lento, de acordo com o assunto a ser tratado e memórias à parte, naquela hora, mais segundo, a menina que tivera o ombro tocado não tinha mais pudores, não tinha mais cálculos a fazer na mente que era tomada por alegria em fúria. Trocariam o dinheiro no Valentino.
Ela sentia-se feliz lá, sentia cheiros de saudades naquelas paredes velhas de madeira, nas mesas apertadas, no balcão invariavelmente pegajoso ao meio da noite, trocou o dinheiro, pediu uma água e juntou-se aos amigos.
Passaram horas conversando e bebericando, falando com e sobre os tipos que freqüentavam o bar, naquele dia um garoto levara um ramister para a "balada", o bicho estava assustado, mas nem por isso deixou de passear pelas costas da garota com a água em uma das mãos. Lá, sempre encontravam conhecidos, amigos e em uma das olhadas para a porta ela viu chegar ao bar o irmão de um querido... Veterano, era parte de sua vida acadêmica e universitária.
Cumprimentou-o.
- Eu adoro esse menino! Mais ainda o irmão dele!
Num rompante seu parceiro da noite, o aviador, lança mão de um foguetório...
- Mas a mãe deles é uma vaca!!
Ela fica quieta e recosta-se...Ele chega seu rosto ao dela e pergunta se tudo está bem...
- Meu... Não esperava que você tivesse uma reação dessas. Ele é meu amigo... E se escuta o que você disse?!
- É pra ouvir mesmo - naquela voz barítona - você não sabe da história à metade...
O clima se tensionava, as paredes apertavam-se e as companheiras de jornada deixavam o casal a sós. Falou compulsivamente sobre seu passado de dor e as relações entre a frase antes dita e as máculas de seu coração de menino, ela não pôde parar o choro convulso que desatava de sua alma... Não pretendia que seu mais querido amigo daqueles tempos sofresse como naquele instante.
Ele chorava com os olhos abertos por baixo dos óculos de lentes grossas e falava com uma dor que transfigurava parte da pele e da boca. Ela não podia fazer qualquer coisa, queria não ter criado a situação mais doída que vivera nos últimos anos... Tentou explicar-se, e ele a pedia para que não chorasse pelo passado que não lhes pertencia, mas ele , dela, nada sabia...Terminada a ladainha que ele desprendia, ela, mais raivosa ou cheia de coragem vomitou o que mantinha seu coração em pulso largo há algum tempo.
- Não devia dizer-te, mas já que tudo isso aconteceu... Se eu pudesse escolher alguém, aqui, para ficar do meu lado hoje, seria você...
Os olhos dele caíram em uma pasmaceira de meio tempo, sorriram logo depois assim como a boca enorme...
- Não sei o que fazer...
- Não tem que fazer nada, não quero que se sinta pressionado a fazer qualquer coisa...
- Mas... não sei o que faço - e recostava sua testa na dela - estou muito feliz...
O beijo esperado ficou trancado na boca lasciva dele. Continuaram a noite sem mais emoções como aquelas, falaram sobre outras coisas e sentaram-se na parte externa do bar, sob a romanzeira que pendia, orgulhosa de seus filhos. Lá, conversaram e alguma frase perdida pela memória desprendeu uma outra sobre iniciativas:
- E o que você vai fazer agora?
- Eu?! Nada... Não compreendeu que deleguei qualquer iniciativa à você?
Ele sorriu mais uma vez. Entraram novamente no bar, no balcão o homem de barba e cabelos negros, que apalpara o ombro da garota no Jubiabá, pedia mais uma dose de cachaça. Ela encaixou seu corpo ao dele no balcão frio.
- Tá pedindo mais uma Ypioca?
- É... - resposta curta.
- Deve ser a oitava da noite...
- É provável... - e voltando-se com o dinheiro na ponta dos dedos - Você está com o garoto, ali?
- Não...- Mas eu achei que estivesse...
- Não estou. - Disse seca - Porque assim como você, ele não quer estar comigo. - Pegou o dinheiro ainda estendido e alcançou a pinga dele, saiu.
Ele a conteve pela mão e pediu que o acompanhasse até sua casa, ela negou. Pariu em direção ao aviador e sentou-se numa cadeira ao seu lado, ele em pé, ditando algo em alemão à uma das garotas que os acompanhavam na noite estranha, lançava a mão aos cabelos dela.
- Tire a mão de mim - Num acesso de fúria doentia ela brandiu. Ele retirou a mão e não teve reação alguma...Os pés dela foram tocados por um all star envelhecido e novamente as barbas familiares pediram pra que ela com ele partisse.
- Vamos embora comigo...
- Não quero!Ele fechou a cara e proferiu frases sem nexo que terminavam num adeus de forja. Ela o segurou pelos cabelos longos e desfechou beijos em seu rosto de pele fina...

A noite acabava.
[03 de dezembro de 2005]
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Last night I told a stranger all about you
They smiled patiently with disbelief
I always knew you would succeed no matter what you tried
And I know you did it all in spite of me
Still I'm proud to have know you for the short time that I did
Glad to have been a step up on your way
Proud to be part of your illustrious career
And I know you did it all in spite of me
In spite of me
Late last night I saw you in my living room
You seemed so close but yet so cold
For a long time I thought that you'd be coming back to me
Those kind of thoughts can be so cruel
So cruel And I know you did it all in spite of me
In spite of me

Morphine
[21 de novembro de 2005]
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It's you that I adore

You will always be my heart
You'll be a mother to my child, and a child to my heart
We must never be apart
We must never be apart
Lovely girl, you're the murder in my world
Without you there aren't reasons left to fight
And I'll pull your crooked teeth
You'll be perfect just like me
You'll be a lover in my bed, and a gun to my head
We must never be apart
We must never be apart
Lovely girl, you're the murder in my world
Dressing coffings for the souls I've left to die
Drinking mercury to the mystery
Of all that you should ever seek to find... in time
In you I see dirty
In you I count stars
In you I feel so pretty
In you I taste god
In you I feel so hungry
In you I crash cars
We must never be apart
Drinking mercury to the mystery
Of all that you should ever seek to find
Lovely girl, you're the murder in my world
Dressing coffings for the souls I've left behind... in time
We must never be apart
It's you that I adore
You will always be my heart
And I'll pull your crooked teeth
You'll be perfect just like me
In you I feel so dirty
In you I crash cars
In you I feel so pretty
In you I taste god

Smashing Pumpkins - Ava Adore
[03 de novembro de 2005]
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é impossível amar alguém com dez dedos nas mãos

olhar além da palavras
lábios finos e um coração de cicatriz
[16 de setembro de 2005]
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Ea abriu a porta e deu um sorriso de estrondo. Não podia acreditar no homem de barba e cabelos enrolados que batia mais uma vez e depois de tanto tempo à sua porta. Fez as honras da casa, tirou o maço de tulipas e o pacote que ele trazia nos braços, o sobre-tudo pesado – inverno rigoroso da Espanha, por incrível que parecesse – Deu um sorriso. E outro e mais quantos teve vontade, e tantos vieram aos lábios que não pode contar, não pôde porque fazia parte de seus músculos aqueles espasmos de felicidade, de contemplação.

Mais uma vez, porta adentro.

Sentaram-se no sofá de tecido branco. Parcamente colocado contra a parede vermelha. Na sala bem iluminada trocaram sorrisos e sorrisos e olhares e olhares. As tulipas no vaso sobre o aparador a completar o ar faceiro que tomava conta do ambiente. E aqueles sorrisos que se seguiam e agora pareciam de plástico e resina. Estava feliz, feliz, feliz.

Mais uma vez. Sentados. Lado a lado. Os tênis all star. A calça jeans surrada. Camiseta de uma só cor. Sorriso. Sentados. Pernas cruzadas sobre o sofá, a almofada no colo, gestos, as mãos sobre a almofada. Calça de linho cru, bata branca, um colar de muitos brilhos e cordas e couros e pedras. Confundindo o olhar que parava nos detalhes das unhas das mãos em descuidado lascar nos cantos. O esmalte claro. Nos pés nus sobre o tecido fino e fofo.

Conversaram. Era cinco da tarde. Ela foi à cozinha, retirou uma tábua, uma faca do armário. Escolheu cebolas, alhos, tomates, temperos: manjericão, pimenta, sal. Sempre salgava demais. Lavou-os, cortou, chorou quando delicadamente fez partir as entranhas da cebola alva. Ele a tocou nas orelhas, a mão de um lado e a língua de outro, ela esquivou-se erguendo como reflexo a ponta da faca. Sorriu mais uma vez.

Ele escolheu os pratos, talheres e copos enquanto o molho simples ficava pronto. Ralou o queijo e cuidou dos guardanapos de linho, da música antiga que tocava.

Ela provou a massa, dama e vagabundo. Ela provou com a ponta da língua a acidez do sugo, colocou o toco de queijo na boca dele e mais e mais e mais e pela última vez sorriu.

Ele ficara com a boca cheia daquele apanhado de gosto bucólico e ela levou a salada fresca cheia de flores à mesa. Perfeitamente. Sentaram para comer, sentaram para celebrar o reencontro de anos. O reencontro de vidas e palavras.

Ela partiu um pedaço de pão que ele trouxera da Itália. Comeram e não falaram, como se fizessem parte de uma família regrada pelo patriarca autoritário, nenhum som além dos talheres batendo contra as louças. A mastigação competente dos dentes brancos de ambos. Ou nem tão brancos dela. Anos de tabaco que ele tanto condenava. Um brinde de silêncio, elegantemente os copos distantes e os pés por debaixo da mesa. Ele recuou a perna quando ela tentou tocá-lo. Ela sorriu, agora pela falta de graça, pelo constrangimento, e não pôde compreender o porquê, por que estaria ele ali, frente a frente, o corpo um pouco reclinado sobre o prato que se eximia da mesa. Foi sempre assim, quase dez anos e nada mudara.

Ela acenava, ele virava as costas e corria, mesmo que quisesse ficar ali parado, ele corria e corria sem nunca olhar, sem nunca voltar a cabeça. Mas seus olhos, ah seus olhos sempre se enchiam de lágrimas ao pensar no que ficava para trás.

Voltou do devaneio, ele erguera um pouco o copo de vinho e ela retribuira o brinde, formalidades à parte sempre ficavam um pouco quietos, um pouco sem palavras. Antigamente ele apenas tocava os cabelos curtos dela e no meio da noite a envolvia vagarosamente, a envolvia e beijava de leve qualquer parte próxima dos lábios... os ombros, ela se mexia como um gato que procura aconchego e acariciava as mãos dele, acariciava com o rosto o braço quase menino e tão mais velho, tão mais vivido que os dela.

Os lençóis cor-de-rosa, os lençóis azuis, alternados na pobreza singela dos anos de faculdade, agora memória regozijada e longe daquela mesa e daquelas tulipas na sala. Num tempo em que as salas de jantar se faziam em puffes e não importava o vaso de gérbera na área da casa vasta, naquela época fizeram valer dias esparsos em que compartilhavam algumas horas e mais algumas garrafas de cachaça ou vodka.

Os dois perdidos nas tulipas como se opiaceamente um flashback acometesse ambos, deixaram os copos sobre a mesa, voltaram para a sala e dois dedos de prosa: a banda dos tempos das festas de república, o que foi feito dos velhos amigos, o que foi feito deles...

Ela abriu a boca para dizer algo e ele a olhou como fazia antes, foi ao seu encontro, beijou. O mesmo gosto, os mesmos movimentos em sincronia. Ambos provaram inúmeras bocas durante os anos de ausência, mas nenhuma suprira aqueles vácuos que nunca tinham lugar no beijo deles. Ficaram assim por alguns minutos, as bocas unidas e os corpos ainda afastados.

Não sabiam mais nada sobre a crise mundial, pouco importava o valor do Euro, pouco importava todas as desavenças e erros que haviam cometido. Cobertos por uma vontade de se colarem, afoitos por misturar odores e fluidos não viram a tarde partir, o sol se por. Ela o trouxe para o sofá maior, fez com que o corpo pesasse sobre o corpo, deixou as mãos dele invadir os esconderijos que as roupas largas poupavam, deixou que mais uma vez o sorriso povoasse seu rosto. Abraçava-o com toda a querência doce e proibida dos amantes mais shakespearianos, mordia seus lábios como as devassas mais calientes de Bukowisk.

Passou a mão por debaixo da blusa dele e desabotoou o cinto, as calças jeans, as puxou vigorosamente para desobstruir o caminho, alcançou o membro ereto ao tempo em que ouvia o gemido surdo. Ele a puxou pelos cabelos, beijou, tirou a blusa e lavrou os seios como a terra mais fértil.

Cabelos puxados mais uma vez, costas a mostra, nuca, mordidas que retiravam torrões de pele e corpo e alma. Entregaram-se à noite hispânica com fervor de pimentas.

Na manhã, os corpos largados no langor do sofá maculado, ele deixou-lhes um beijo na face, roubou uma tulipa com cheiro doce de chocolate, derrubou outra. O final das histórias nunca muda.

Ela acordou, levantou. Recolheu a louça, lavou cada talher mais de uma vez, poliu a prata, secou os copos até ouvir o barulho do linho contra o cristal, secou e guardou a louça, bateu a toalha no tanque. Tomou um copo de água e mais dois goles, deixou o copo com o resto sobre a pia.
Caminhou até o quarto, escolheu uma roupa, a que mais gostava, tirou as peças que havia recolocado, entrou no banho, demorou mais que o de costume, não ligou a banheira ou gastou os caros sais de banho. Saiu, secou-se passou um creme sobre a pele branca, perfumou-se, penteou os cabelos. Colou a roupa e vestiu os pés com botas de camurça clara.

Tirou um livro da estante:

“I know the bottom, she says. I know it with my great tap root;
It is what you fear.
I do not fear it: I have been there.
Is it the sea you hear in me,
Its dissatisfactions?
Or the voice of nothing, that was you madness?
Love is a shadow.
How you lie and cry after it.
Listen: these are its hooves: it has gone off, like a horse.
All night I shall gallup thus, impetuously,
Till your head is a stone, your pillow a little turf,
Echoing, echoing.
Clouds pass and disperse.
Are those the faces of love, those pale irretrievables?
Is it for such I agitate my heart?
I am incapable of more knowledge.
What is this, this face
So murderous in its strangle of branches?—
Its snaky acids kiss.
t petrifies the will. These are the isolate, slow faults
That kill, that kill, that kill.”

Não pôde sair. Os pães esfriavam nos cestos da padaria.
[09 de agosto de 2005]
[arquivo]
A Clockwork Orange é uma expressão da gíria cockney, que denomina o desajustado agressivo e desequilibrado, que odeia as instituições e os seres e os agride, inclusive fisicamente, mas por razões puramente psicológicas, sem nenhuma politizaçào nem ideologia. Alex é exatamente isso. A expressão aproximada, se bem que ainda inexata sem português, seria "porra-louca".
(Nelson Dantas - fev/ 72) Sobre "Laranja Mecânica" de Anthony Burgess
[25 de junho de 2005]
[arquivo]
Natural

Força do acaso maior que o toque
Nuca, pés, cabelos
Tão perfeitos como gosto de romã
No ambiente periférico resta o cheiro de entranha
Discorra rápido sobre os dias
Do suicídio ao desconhecido
[18 de junho de 2005]
[arquivo]
Derrelição

Desalento
Desconsolo...
começam com a mesma letra...
constatação indescente.
[05 de junho de 2005]
[arquivo]
(...) Entrei e sentei-me ao lado de Brett. O chofer foi subindo a rua. Recostei-me no fundo do carro e Brett se aproximou de mim. Estávamos bem juntos um do outro. Rodeei-a com o braço e ela se encostou a mim, comodamente. O ar era ardente e luminoso e as casas de um branco cru. Entramos na Gran Via.- Oh! Jake - disse Brett. - Poderíamos ter sido tão felizes juntos!Diante de nós, um polícia em uniforme cáqui, a cavalo, dirigia o tráfego. Ergueu o bastào. O carro diminuiu a marcha, bruscamente, atirando Brett de encontro a mim.- Sim - disse eu. - É sempre agradável pensar nisso. "
Ernest Hemingway
[02 de junho de 2005]
[arquivo]
Resta um pouco de brigadeiro na tigela, resta um pouco de sorvete na colher... a vida andou doce, com gosto de história de faz-de-conta. Faz-de-conta que não acaba. Faz-de-conta...
[15 de maio de 2005]

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

[arquivo]
Cadê as horas? Os dias?

Perdida sem pressa no caminho reto quase torto. Fiquei sentada no breu, frente à cama que não dorme. Fiquei lá, mãos sobre o joelho, joelho junto ao peito, peito ausente. Tentei chorar, rir, sofrer. Felicidade de séquito. Mas nada foi possível na escuridão amarga. Nem pensar na personagem, nem correr contra a parede.

Em frente, meio passo, uma vela de cor indefinida. Rezei para a alma de meu filho, não nascido. Rezei vagarosamente e ouvi um adeus que não queria dar. Ouvi um adeus que soou verdadeiro e magoado. Não consegui resolver os dias que perdi. Feliz de vocês que ainda podem.
[13 de maio de 2005]
[arquivo]
Mariana
Marejada
Mantém-se afastada
Mandou-lhe um beijo
Matou-se depois
Deixou-lhe uma carta.

Cadê?
[03 de maio de 2005]
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DIAS QUE SE FAZEM IGUAIS
NESTAS HORAS REPETIDAS
DIAS QUE PASSAM SEM PAR
NESTES ANOS DIFERENTES
HORAS, DIAS DE HISTÓRIA
HORAS NAQUELES DEVANEIOS LOUCOS
DE AMORES INCONSEQÜENTES

(Para DB e GF)
[03 de maio de 2005]
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Não fosse isso
era menos
não fosse tanto
era quase

Paulo Leminski
[28 de abril de 2005]
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Eu encontrei quando não quis mais procurar o meu amor
E quanto levou foi pr'eu merecer
antes um mês
e eu ja não sei...
E até quem me vê lendo o jornal na fila do pão
sabe que eu te encontrei
E ninguém dirá que é tarde de mais
que é tão diferente assim
Do nosso amor a gente é que sabe...
(ahhh vaaai)
Me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém afim de te acompanhar
E se o caso for de ira à praia eu levo essa casa numa sacola!
Eu encontrei e quis duvidar tanto clichê deve não ser
Você me faloupr'eu não me não me preocupar
ter fé e ver coragem no amor
E só de te ver eu penso em trocar a minha TV num jeito de te levar...
A qualquer lugar que você queira e ir onde o vento for
que pra nós dois sair de casa já é se aventurar
(ahhhhhhh vaaaai)
Me diz o que é sossego que eu te mostro alguém afim de te acompanhar
E se o tempo for te levar eu sigo essa hora e pego carona...
Pra te acompanhar!

Los Hermanos
[20 de abril de 2005]
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Não dá pé não tem pé nem cabeça
Não tem ninguém que mereça
Não tem coração que esqueça
Não tem jeito mesmo
Não tem dó no peito
Não tem talvez
Ter feito o que você me fez
Desapareça cresça e desapareça
Não tem dó no peito
Não tem jeito
Não tem ninguém que mereça
Não tem coração que esqueça
Não tem pé não tem cabeça
Não dá pé não é direito
Não foi nada eu não fiz nada disso
E você fez um bicho de 7 cabeças
Bicho de 7 cabeças
Bicho de 7 cabeças

Zeca Baleiro
[01 de abril de 2005]
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Saiu como se fosse para um parque com roda-gigante e algodão doce. Entrou no carro: Ar frio. A casa: Ar frio. Amenidades que convém aos bons amigos de muitas águas. Beijos sem gosto; gosto de nuvem. Água clorada. Pouco mais de duas horas, mais água. Bruto tirou toda a pureza de seus dias, devolveu apenas a pureza que sorri sem dentes. Vermelho deixou correr pelos grãos de pó, pelas tramas do tecido uma enxurrada de folguedo.
[03 de março de 2005]
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Arrancou uma parte que, até então, fez a diferença e agora em nada faltava. Sangria de sorrisos por todo aquele ambiente fresco. Da pele-boca, boca-gosto sobrou um grito frouxo, um riso agudo.

Daquela hora quase meia, duas tantas pernas em vias da terceira, quarta, mudaram a vida na medida da física. Corpos que ocupam o mesmo único lugar na hora. Espaço opaco. Luz quase inteira, óculos lançados fora, nem rosa, nem cacto. Paixão de meio instante que não deixa rastro.
[01 de março de 2005]
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PARECE-ME QUE DEVERÍAMOS APENAS LER LIVROS QUE NOS MORDAM E ESPICACEM. SE A OBRA QUE LEMOS NÃO NOS DESPERTA COMO UM GOLPE DE PUNHO SOBRE O CRÂNIO, QUAL A VANTAGEM DE A LER? PARA QUE NOS TORNE FELIZES? MEU DEUS, SERÍAMOS DA MESMA FORMA FELIZES SE NÃO TIVÉSSEMOS LIVROS. E OS LIVROS QUE NOS DEIXAM FELIZES, A RIGOR, PODERÍAMOS ESCREVÊ-LOS NÓS MESMOS. EM CONTRAPARTIDA, PRECISAMOS DE LIVROS QUE SOBRE NÓS ATUEM DE MODO IGUAL A UMA DESGRAÇA; QUE NOS FAÇAM SOFRER MUITO, COMO A MORTE DE QUEM AMÁSSWMOS MAIS DO QUE A NÓS MESMOS; COMO UM SUICÍDIO. UM LIVRO DEVE SER O MACHADO QUE ROMPE O MAR GELADO EXISTENTE EM CADA UM DE NÓS.
Franz Kafka
[25 de fevereiro de 2005]
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“Gastei uma grana filha-da-puta”, pensou em meio aos dedos que vasculhavam a carteira quase vazia. Deu de ombros e desceu do ônibus que começava a se encher com todos aqueles trabalhadores matinais. – “Como podem acordar a essa hora”? Ele que estava indo para a cama naquele momento. Bateu no bolso, sentiu o peso das chaves, as apanhou e testou umas três até achar a que realmente pudesse abrir a porta.

“Ces't moi... Ces't moi”... A loucura de minhas próprias criações. Deu de cara com as telas mal acabadas e deixadas de lado. Era um fracasso completo como pintor. “Mas o que faria se desistisse dessa vida”? Adorava os café e as prostitutas, e digamos, que essa profissão lhes dava um terno charme decadente.

Sempre que saía de casa pensava em um quadro de Van Gogh: Aquele café era como toda a essência de seu mundo. Condensava todo o apelo noturno na tela e desejava que os pardieiros que freqüentava se tornassem cheios de cores e vida e ócio.

Entrou em casa, a mesa que se via da porta ainda estava bagunçada: Tintas, óleo de linhaça, pincéis de vários diâmetros, pontas chatas e redondas, pedaços de comida velha e uma garrafa de água ardente pela metade. Abraçou-se à Ypioca querida e... "Love love me do... You know I love you..."

Deixou a garrafa sobre a mesa, estendeu-se na cama desarrumada.
[21 de fevereiro de 2005]
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V A G A S
Há vagas nas vagas
V A G A S
[12 de fevereiro de 2005]
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A mudança que cala e não muda
Terra vaga que consome
A queixa queixoza que não cessa
Na boca da criança cavernosa
Tens coração de engenho
Mãos de aço, perfume incerto
Cores serenas de dias corais

Na cor que muda da treva ao zelo
Do ar ao credo

Do inferno à rosa...
[12 de fevereiro de 2005]
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O homem

Daqueles músculos restou pouco. As pernas rijas eram mais ossos que carne, ossos tenros e sensíveis escondidos por debaixo das calças amarronzadas. Tinha joelhos salientes que faziam o tecido balouçar quando batia ritmada a perna. Quase encosta e não toca. As mãos com os dedos tocando mútuos suas pontas. Mão singulares, doentes sei eu, os dedos sem a melanina que os fazia inesquecíveis. Aquelas mãos eram pesadas e duras, macias e calmas. Tocavam as cabeças de seus continuadores com densidade. Muitos odores, perfumes sextavados nas últimas gavetas. O espelho de cristal, os móveis escuros, no criado mudo as abotuaduras, terços, prendedores de gravata o anel de rubi. Travesseiros altos e ternos talhados, loção pindorama e muita pós-barba que nunca ficara por fazer. Dois óculos de aros diferentes e um relógio de corda. Os sapatos alinhados trocados pelos tênis, trocados por chinelos. As meias finas aparentes - agora - em sua fragilidade imensa. A cabeça inclinada para trás, o ronco, os banhos de luz e remédios mais que fitoterápicos, remédios demais pelas manhãs e noites, almoços e cafés da tarde. A falta de açúcar que lhe fazia doce, os documentos e os guardados. Fotos e cartas com flores secas, memórias velhas como rugas. O pão escuro que deixou de ser comprado...

O trabalho

As horas perdidas com os livros de bolso, faroestes baratos. A caixa com dinheiro e coisas de valia no fundo da loja empoeirada. O ferrão do escorpião negro que prendia seu dono, as vulgaridades dos aros de bicicleta e dos cristais... a cadeira de sustentação azul, as cadeiras de madeira velha. Calculadora comprada a custo. Jornais para embrulhar. Cartões em branco.

O quarto

A cama no meio do corredor de três portas, a cortina vermelha e o leito baixo. O abajur bicolor. Dentaduras no copo, ciroulas brancas, gravatas chinesas, presentes com cara de bonecas que choravam e sapatos de verniz colorido...

O avô

Continuou alí ao lado olhando, como sempre fez. Sorriso para a vida que passa sob o sol na calçada da frente. Folhas secas pelo chão, vassouras naturais. Disciplina e ordem na firmeza doce. Esteve depois de oito anos sentado novamente, camisa de listras e a calça quase musgo. Relógio no braço e os óculos de aro marrom. Cabelos ralos entre cinza e branco... sorriso largo. Eu o senti.
Na foto recortada, bengala, chapéu de lado e terno asseado, época que quisera eu tê-lo conhecido.
Cuidou, orou, velou, ninou, partiu.
[02 de fevereiro de 2005]
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de quando se quer morrer
e a caneta corre vaga
no silêncio da música
além da pausa d
e cortar os pulsos
na hora rasa
poesia insana que depara
a boa seca e devassa
queda-se em silêncio
cala
[27 de janeiro de 2005]
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Casas paredes sem caimento Cairam
Soterraram os corpos dos homens
Chorou de leve a manta toda.
[05 de janeiro de 2005]
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Desafortunado. Perdeu os dias contando as moedas de 10 centavos. - Ela não pôde assimilar o quanto valia a pouca nota. Três dias depois não tinham pão ou leite para comer. Vinte e quatro ou cinco horas de jejum. Ela tirava as colheradas da boca descarnada de sua mãe. - Cadê o remorso?! Parou na padaria ao lado e comprou um brioche.
[26 de dezembro de 2004]
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Estou tentando juntar as linhas para coser os trapinhos em seus antigos lugares, pontos-finais, exclamações e vírgulas.
[15 de dezembro de 2004]
[arquivo]
DERRADEIRO SENTIR DE PERFUMES? ODORES?
A OBESIDADE ME PRENDE EM CASA, NÃO PASSO PELA PORTA
A OBESIDADE ME PRENDE EM CASA, NÃO PASSO PELO ESPELHO
A OBESIDADE PRENDE MINHAS MÃOS, FUI À GELADEIRA E COMI OS OLHOS DA CULPA
[24 de novembro de 2004]
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Se passo pela escada avessa ao desatino
esbarro delicado no dia, no seu caminho

Se passo pela janela porteira avessa do dia
esbarro no caminho, sem o seu
sozinho

[03 de novembro de 2004]