quarta-feira, 11 de novembro de 2009

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Nuvens escuras.
- Hoje vai chover...
- Isso... isso... você sempre fala sobre o tempo, né?! Senhor aviador...
Ele sorriu a boca larga de sempre os olhos vivos de sempre.Saíram, o carro deslisou manso pelas ruas incomuns da zona sul da cidade. Ela reparava nos bares amarelos que não mais freqüentava, no prédio verde desbotado, familiar, do lado esquerdo da rua... Na conversa fácil que sempre tiveram as distâncias sempre eram próximas e as horas não custavam horas a passar.
- É aqui, 878...
Na mesma sílaba inconclusa do último número o toque das rodas em um ponto final do asfalto. Desceram, pegaram as cervejas e foram à portaria do prédio modesto. Lá, festa. Entraram, rindo e fazendo uma "cena" como gostavam à muito... Diziam que entrar brigando em uma despedida do amigo dela que partia e onde poucos eram conhecidos parecia digno de nota e execussão, na porta dissuadiu-se o pretendido. Todos já bêbados, felizes e chorosos, fotos e palavras fáceis. Recostaram-se à janela. O assunto corria entre príncipes de Bahen e cotonetes sujos, qualquer coisa era fala.
Meia hora e não mais agüentavam a festa tediosa. Beijo e abraço, mais beijo e amores daqueles de fraternidade nas mão grandes do amigo que partia e cinco cervejas na sacola. Desceram sorridentes no elevador lento e lançaram os corpos para o carro quente, próxima parada, uma casa de mulheres.

Elas estavam todas ali com seus sorrisos largos e copos e garrafas diferentes - a irmã, mais querida entre todos os mais queridos - despejada sobre o sofá azul tão familiar destilava palavras de açúcar a cada novo traço de magia que seus dedos longos de fada podiam desenhar sobre o ar seco da noite.
Ficaram por lá alguns minutos entre recordações e novas promessas de festas e vidas, entre goles de Cuba Libre e idas regadas à cerveja ao banheiro parcamente limpo, incomum. Ele a olhava terno e lançava as sandálias longe, as quais ela conseguia deter com o dedo maior do pé branco, ficavam sozinhos na sacada e viam a rua quieta mover-se em passos de betume e sarjetas de cristal. O olhar brilhava, farol magro da noite. Tomaram, beberam, sorriram muitas vezes...
Meia-hora mais ou menos e estavam à caminho de uma casa de loucos felizes. Saíram do apartamento, ele e as cinco ninfas de chuva e tempestades mais fortes, caminharam três quadras e transpuseram a porta de madeira da casa antiga em marrom e beje. Entraram numa efusão de abraços e saudades, de sons, cachaças e fumaças naturalmente refletoras de sorrisos do ambiente. Naquela sala de homens em meio a cadeiras, sofás e mesas rotas, garrafas e pedaços de papel pelo chão de tábuas corridas ficava encrustada a sensação de delícia e fugacidade que os ébrios e fanfarrões mais felizes podiam almejar por um dia. O casal de amigos, envergados pela noite, fez de uma cadeira a reprodução perfeita do colo de mãe, ela envolvia a cintura do aviador com mãos de brigadeiro e ele deixava o peso dos ossos e olhos cair sobre as coxas fortes dela. Pouco depois, suas mãos correram ágeis e fortes pelas costas cansadas da menina, levantou-se e massageou cada nó tenso e ela entrou em uma dimensão louca que misturava aqueles cheiros e toques...

Antes dos dez próximos minutos o tempo havia parado em uma dimensão de felicidade, até que o telefone insone tocasse e destoasse a noite, não haveria mais festa... Saíram, o aviador e suas cinco mulheres, companhias de uma noite. Entraram apertados no carro azul e rodaram até o bar Jubiabá, sentaram em uma mesa, cortesmente oferecida pelo garçom amigo-simpatia que tirava as cadeiras, já guardadas, de seu sono e trazia cervejas estupidamente geladas aos novos amigos que brindavam as histórias e conflitos entre homens e mulheres. Gritaria, gritaria, descententes de povos com fogo nas artérias e línguas de aço, batiam-se os dentes e as línguas em uma discussão inflamada que chamava a atenção de todos que ainda permaneciam no bar.
- Porque... homens fogem de mulheres interessantes... Quero ver você negar isso... - Repetiam em coro as cinco garotas da mesa, coagido o aviador concordava entre os gritos de vitória da mulherada.
Alguém tocou o ombro da garota que juntara a turma inusitada, apanhou o ombro com força e levantou a carne retesada um pouco, ela custou a olhar, quando virou percorreu da mão ao braço familiar, a camiseta básica e a pele alva... Chegou à barba fechada e densa que passeara por vezes em sua pele delicada de vidro.
- Vim falar tchau...
- Mas por quê?! Eu deixo a cidade só pelo dia 20...
- Não... Estou indo embora do bar...
- Mas você não vai para o Valentino?
Ele já saíra, deixando um beijo quente no rosto dela, apontando na direção do último bar da noite, mais algumas garrafas e sairiam à última paragem.

Confusão para deixar cada troco com seu dono, o álcool fazia o pensamento rápido e lento, de acordo com o assunto a ser tratado e memórias à parte, naquela hora, mais segundo, a menina que tivera o ombro tocado não tinha mais pudores, não tinha mais cálculos a fazer na mente que era tomada por alegria em fúria. Trocariam o dinheiro no Valentino.
Ela sentia-se feliz lá, sentia cheiros de saudades naquelas paredes velhas de madeira, nas mesas apertadas, no balcão invariavelmente pegajoso ao meio da noite, trocou o dinheiro, pediu uma água e juntou-se aos amigos.
Passaram horas conversando e bebericando, falando com e sobre os tipos que freqüentavam o bar, naquele dia um garoto levara um ramister para a "balada", o bicho estava assustado, mas nem por isso deixou de passear pelas costas da garota com a água em uma das mãos. Lá, sempre encontravam conhecidos, amigos e em uma das olhadas para a porta ela viu chegar ao bar o irmão de um querido... Veterano, era parte de sua vida acadêmica e universitária.
Cumprimentou-o.
- Eu adoro esse menino! Mais ainda o irmão dele!
Num rompante seu parceiro da noite, o aviador, lança mão de um foguetório...
- Mas a mãe deles é uma vaca!!
Ela fica quieta e recosta-se...Ele chega seu rosto ao dela e pergunta se tudo está bem...
- Meu... Não esperava que você tivesse uma reação dessas. Ele é meu amigo... E se escuta o que você disse?!
- É pra ouvir mesmo - naquela voz barítona - você não sabe da história à metade...
O clima se tensionava, as paredes apertavam-se e as companheiras de jornada deixavam o casal a sós. Falou compulsivamente sobre seu passado de dor e as relações entre a frase antes dita e as máculas de seu coração de menino, ela não pôde parar o choro convulso que desatava de sua alma... Não pretendia que seu mais querido amigo daqueles tempos sofresse como naquele instante.
Ele chorava com os olhos abertos por baixo dos óculos de lentes grossas e falava com uma dor que transfigurava parte da pele e da boca. Ela não podia fazer qualquer coisa, queria não ter criado a situação mais doída que vivera nos últimos anos... Tentou explicar-se, e ele a pedia para que não chorasse pelo passado que não lhes pertencia, mas ele , dela, nada sabia...Terminada a ladainha que ele desprendia, ela, mais raivosa ou cheia de coragem vomitou o que mantinha seu coração em pulso largo há algum tempo.
- Não devia dizer-te, mas já que tudo isso aconteceu... Se eu pudesse escolher alguém, aqui, para ficar do meu lado hoje, seria você...
Os olhos dele caíram em uma pasmaceira de meio tempo, sorriram logo depois assim como a boca enorme...
- Não sei o que fazer...
- Não tem que fazer nada, não quero que se sinta pressionado a fazer qualquer coisa...
- Mas... não sei o que faço - e recostava sua testa na dela - estou muito feliz...
O beijo esperado ficou trancado na boca lasciva dele. Continuaram a noite sem mais emoções como aquelas, falaram sobre outras coisas e sentaram-se na parte externa do bar, sob a romanzeira que pendia, orgulhosa de seus filhos. Lá, conversaram e alguma frase perdida pela memória desprendeu uma outra sobre iniciativas:
- E o que você vai fazer agora?
- Eu?! Nada... Não compreendeu que deleguei qualquer iniciativa à você?
Ele sorriu mais uma vez. Entraram novamente no bar, no balcão o homem de barba e cabelos negros, que apalpara o ombro da garota no Jubiabá, pedia mais uma dose de cachaça. Ela encaixou seu corpo ao dele no balcão frio.
- Tá pedindo mais uma Ypioca?
- É... - resposta curta.
- Deve ser a oitava da noite...
- É provável... - e voltando-se com o dinheiro na ponta dos dedos - Você está com o garoto, ali?
- Não...- Mas eu achei que estivesse...
- Não estou. - Disse seca - Porque assim como você, ele não quer estar comigo. - Pegou o dinheiro ainda estendido e alcançou a pinga dele, saiu.
Ele a conteve pela mão e pediu que o acompanhasse até sua casa, ela negou. Pariu em direção ao aviador e sentou-se numa cadeira ao seu lado, ele em pé, ditando algo em alemão à uma das garotas que os acompanhavam na noite estranha, lançava a mão aos cabelos dela.
- Tire a mão de mim - Num acesso de fúria doentia ela brandiu. Ele retirou a mão e não teve reação alguma...Os pés dela foram tocados por um all star envelhecido e novamente as barbas familiares pediram pra que ela com ele partisse.
- Vamos embora comigo...
- Não quero!Ele fechou a cara e proferiu frases sem nexo que terminavam num adeus de forja. Ela o segurou pelos cabelos longos e desfechou beijos em seu rosto de pele fina...

A noite acabava.
[03 de dezembro de 2005]