quarta-feira, 11 de novembro de 2009

[arquivo]
Nicolau e as cenouras.
Tenho três meses e tão pouco conheço desta vida. Lembro dos primeiros dias com outros iguais a mim e caixa de papelão tida como casa. Logo, afastado de mamãe, ganhei novo lar, uma dona e uma "madrinha", casinha fofa, brinquedos.
A casa tinha chão liso, um sofá zebrado. E eu corria, corria, corria de uma sacada a outra arrastando tudo aquilo que pudesse. Com o tempo aprendi que o que as meninas levavam à boca poderia ser saboroso também para mim. Eu, que na minha tenra infância apenas podia provar de ração para filhotes e água fresca, poderia agora sentir o prazer da boa mesa.
Um dia ganhei meu primeiro bocado. Suco fresco de maracujá. Azedo e tranquilizador, me fez dormir dopado como um anjo. Logo, outras frutas vieram: mamão, maçã, pêra, uva, banana. Depois, cenouras. Cada coisa com seu gosto e seu nome, como era de se esperar. Eu, nada bobo, me divertia com os bocados e brincava com os generosos e divertidos nacos.
Porém, numa noite, um moço tocou a campainha e eu, no meu canto, descobri que alguns homens poderiam trazer guloseimas para a felicidade de minhas meninas. O cheiro que saída daquelas caixas e potinhos era sempre quente e salgado. Esperto, achei que aquelas comidas que nunca havia provado, mas que agora podia cheirar seguiam a lógica de minhas conhecidas frutas e da amada cenoura. Eu podia ver: franguinhos, batatinhas, hamburgueres, macarrão... Nhac! Ao morder a nuvem da imaginação, o formato de cada sabor se dissipava na língua em um mesmo adocicado, frio, molhado paladar. Cenoura.
[04 de junho de 2009 ]