segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Nicolau está deitado no sofá e tem os olhos baixos. Acabo de gritar com ele. Ele, que só queria dar uma volta em frente ao prédio. Nicolau está deitado no sofá. Encostado em mim, ressona cansado da vida de cão tão catita que leva. Dorme tranquilo. Há pouco pedi que ele ficasse quieto, ele não quis. Eu "que só queria um pouco de silêncio pra colocar as ideias em ordem". Era mentira. Mais uma vez.

Não sei mais dizer não. Não sei me conformar com os dias ou talvez me conforme demais. Não sei mais como é ser a mim. Quando, enfim, o cão dorme, não tenho forças para escrever, vontade de ler, condições para pensar. Vai sempre haver uma desculpa. O cão. A louça na pia. O mau-humor do dia.

O coração vai dolorido sendo jogado de uma falta de expectativa a uma realidade logo fugidia e, depois, uma decepção desesperada enquanto eu nutro a obsessão "do que tem pra hoje". Do jornalista adicto - o sorriso mais lindo desse mundo. Do cineasta que calça sapatos femininos. Do médico afobado e que também parece desculpar-se a todo tempo. Para o ator com sorriso de palhaço. Para o melhor amigo que, às vezes, parece apenas conhecido. Para o colega de trabalho jogador compulsivo ou o outro tão problemático quanto eu.

O coração se afeta. Apaixona-se e desapaixona-se terrivelmente. Sente-se traído, mas sequer quis de verdade. A relação com qualquer coisa anda assim: O desejo do passado. O amor alimentado à distância por conveniência e unipartidarismo. A certeza do "dar certo" mais tarde: "É aos trinta, talvez 40, hoje em dia"...

No silêncio da piscina a certeza de um instante de imutabilidade. Comodidade. Onde o fracasso não ultrapassa a borda e, se o fizer, vai levar apenas algumas gotas de vantagem. Onde a decepção de si para consigo - projetada no outro - não chega, até que na raia se multipliquem os nadadores.

"Quero ir embora", penso sempre. Mas nunca soube dizer pra onde.