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Aconteceu assim, como? Na verdade eu não fiz questão de guardar com precisão na memória já gasta. Talvez, dessa vez, não quisesse consciência do dia e dos minutos que se seguiam, talvez dessa vez, tivesse eu criado uma carapaça que recobrira as pontas dos neurônios evitando a sinapse que levaria a lembrança, por medo, puro e simples de ter que conviver apenas com o recuerdo por algumas semanas.
Aconteceu assim, como? Na verdade eu não fiz questão de guardar com precisão na memória já gasta. Talvez, dessa vez, não quisesse consciência do dia e dos minutos que se seguiam, talvez dessa vez, tivesse eu criado uma carapaça que recobrira as pontas dos neurônios evitando a sinapse que levaria a lembrança, por medo, puro e simples de ter que conviver apenas com o recuerdo por algumas semanas.
Mas, a despeito da mente, os dedos e olhos fizeram o favor de registrar o tempo curto entre o desconhecido e o amor próximo. Ele tinha uma tatuagem no ombro esquerdo, grande e cheia de um rugido rouco. Tinha cabelos cacheados, como o amado de outrora. Tinha dentes marcados de nicotina e uma barba rude a ser feita. Tinha dedos gordinhos nas mãos e os pés bonitos, assim como os ombros, assim como os olhos. Uma fala forte e doce, cheia de uma sutileza de nenúfar.
Ele, foi sincero. Eu, fui fugidia e, apenas desta vez, deixei o orgulho de lado e entreguei os lábios a ele. A história começou numa noite lancinante de sexta-feira. Era uma casa desconhecida, pessoas desconhecidas e uma sombra azul projetada na sala de entrada. Ela, a sombra, guardava cada movimento da casa e guardaria mais tarde o enroscamento de corpos perpetrado pelo casal inusitado.
Ele chegou depois de mim. Eu fui para uma despedida de um cara que mal conhecia. Ele sorriu e guardou dentro de si o olhar que eu despejei feito espuma pelo quintal imundo. Ele e eu conversamos sozinhos num canto mal iluminado e depois de alguns minutos nos separamos, tomamos caminhos opostos. Ele, rápido, tomou-se por completo, tornou-se distante nos braços da menina de saia branca e mãos de cientista. Eu, resistência derradeira, afoguei os olhos em um copo com gelo, gelo para esfriar as tripas, as entranhas.
Fim de noite, um a um todos foram para suas casas, seus refúgios, suas bocas, suas traições, seus colos. Um a um, novos amigos tornaram-se estranhos novamente, porque dali pouco, quase nada, seria guardado na memória. Na vitrolinha rodava um som que ela desconhecia e ele, já órfão das mãos de pipeta e kitassato, cantarolava.
Nós, sentados, lado-a-lado nas cadeiras bambas ficamos falando das estrelas e apontando-as, sem medo de que verrugas nojentas brotassem nas pontas de nossos narizes perfeitos. Uma frase, daquelas clichês de quem troca o certo pelo duvidoso e eu me rendi, alheia de mim, a ele, seguro e voraz de si.
Começou, sem porque, a história de 24 horas unidas e sempre, mais juntas em apenas 72. Juntaram-se, colaram-se, atracaram-se no calor absurdo da cidade que acalorava os corpos. Juntaram-se, uniram-se e, sem pensar que as horas conhecidas eram realmente poucas, fizeram-se um, como se de outras vidas ali regressassem, como se de muito tempo ali se reencontrassem.
[12 de abril de 2007]