quinta-feira, 24 de setembro de 2009

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O homem

Daqueles músculos restou pouco. As pernas rijas eram mais ossos que carne, ossos tenros e sensíveis escondidos por debaixo das calças amarronzadas. Tinha joelhos salientes que faziam o tecido balouçar quando batia ritmada a perna. Quase encosta e não toca. As mãos com os dedos tocando mútuos suas pontas. Mão singulares, doentes sei eu, os dedos sem a melanina que os fazia inesquecíveis. Aquelas mãos eram pesadas e duras, macias e calmas. Tocavam as cabeças de seus continuadores com densidade. Muitos odores, perfumes sextavados nas últimas gavetas. O espelho de cristal, os móveis escuros, no criado mudo as abotuaduras, terços, prendedores de gravata o anel de rubi. Travesseiros altos e ternos talhados, loção pindorama e muita pós-barba que nunca ficara por fazer. Dois óculos de aros diferentes e um relógio de corda. Os sapatos alinhados trocados pelos tênis, trocados por chinelos. As meias finas aparentes - agora - em sua fragilidade imensa. A cabeça inclinada para trás, o ronco, os banhos de luz e remédios mais que fitoterápicos, remédios demais pelas manhãs e noites, almoços e cafés da tarde. A falta de açúcar que lhe fazia doce, os documentos e os guardados. Fotos e cartas com flores secas, memórias velhas como rugas. O pão escuro que deixou de ser comprado...

O trabalho

As horas perdidas com os livros de bolso, faroestes baratos. A caixa com dinheiro e coisas de valia no fundo da loja empoeirada. O ferrão do escorpião negro que prendia seu dono, as vulgaridades dos aros de bicicleta e dos cristais... a cadeira de sustentação azul, as cadeiras de madeira velha. Calculadora comprada a custo. Jornais para embrulhar. Cartões em branco.

O quarto

A cama no meio do corredor de três portas, a cortina vermelha e o leito baixo. O abajur bicolor. Dentaduras no copo, ciroulas brancas, gravatas chinesas, presentes com cara de bonecas que choravam e sapatos de verniz colorido...

O avô

Continuou alí ao lado olhando, como sempre fez. Sorriso para a vida que passa sob o sol na calçada da frente. Folhas secas pelo chão, vassouras naturais. Disciplina e ordem na firmeza doce. Esteve depois de oito anos sentado novamente, camisa de listras e a calça quase musgo. Relógio no braço e os óculos de aro marrom. Cabelos ralos entre cinza e branco... sorriso largo. Eu o senti.
Na foto recortada, bengala, chapéu de lado e terno asseado, época que quisera eu tê-lo conhecido.
Cuidou, orou, velou, ninou, partiu.
[02 de fevereiro de 2005]