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Fechou a janela pela última vez. O corpo jazia sobre a cama, ainda sem roupas e sem os preparos para o funeral que aconteceria daqui pouco mais de catorze horas. A família toda estaria na pequena cidade em questão, também, de horas.
Fechou a janela pela última vez. O corpo jazia sobre a cama, ainda sem roupas e sem os preparos para o funeral que aconteceria daqui pouco mais de catorze horas. A família toda estaria na pequena cidade em questão, também, de horas.
O velho patriarca morrera no hospital, sob olhar do genro que havia dormido todos aqueles dias na cama ao lado. A filha ficara com a neta em casa, a menina era ainda criança e a mãe tentava poupar-lhe o sofrimento de ver o avô nas últimas horas. Estava ele desenganado em seus 89 anos.
Foi numa noite nem fria, nem quente, daquela cidadezinha pacata que há mais de cinqüenta anos escolhera morar, que seu corpo jazia agora, sobre a cama. O quarto cheirava às flores que ali não estavam e no ar pairava uma música que tantos cantaram e que agora era de uma mudez invencível.
Vestiram-lhe o terno preto e a gravata de seda chinesa cinzenta, um terço de contas também cinzas, sementes e penduricalhos religiosos ficava enrolado nas mãos juntas, e ele ainda era tão bonito.
Naquela noite, a neta que dormia na cama da mãe acordou num soluço – O Vô morreu. Disse. A mãe com o coração apertado tomou-a nos braços enquanto o telefone tocava anunciando o quase óbito que se seguia. Ficaram as duas por um momento quietas e num choro convulso ouviram no quarto, que hora e meia depois abrigava o corpo inerte, um som de chuva que passava logo e ia feliz deixando a terra molhada.
Tudo pronto, os chás quentes nas garrafas e os cafés, algumas bolachas de sal e fatias húngaras para ele que não podia com doces. Envergado o negro, os lenços, os abraços iam seguindo até o último parente chegar, já passava das quatro da manha. Frio.
O corpo deixando aquilo tudo insoso, as pessoas com olhares tristes e amofinados até que se ouviu uma risada doce, duas crianças a rir, no fundo do velório, atrás das velas e coroas.
Os pais, os tios, olharam com desgosto para os pequerruchos ali, mas no fundo pensaram que o morto, ali estaria rindo com os olhos, se vivo. Ninguém soube, porém, que quem causara a risada sossegada fora o velho de bondade infinita e pulso firme que ali jazia.
Atrasado o enterro para a chegada da extrema unção pelo padre escolhido, ficara para as dezessete horas a descida do caixão. Tristes choraram filha, genro e neta, mais que todos. E numa pobreza esquizofrênica deixaram cair algumas flores sobre o tampo escuro do féretro.
Todos numa procissão deixaram o terreno santo ao cair do sol e do rosto que não mais veriam. Chegando à casa que o velho habitava com a filha, o genro e a neta, todos os parentes sentaram à mesa. As crianças que riram tão despropositadamente foram ao quarto da neta e ele, também neto, deitou a lembrança daquele dia num desenho: o sol quase posto, e pessoas palito saindo por uma rua onde as cruzes passavam e olhavam.
Anos depois, veio o avô povoar os sonhos da menina e acariciar seus cabelos quando estava só. Amores não morrem.
[09 de junho de 2006]