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Conservantes.
Conservantes.
Não queria mais guardar a base de naftalina aquele amigo antigo. Amigo não, amante esporádico que vez por outra fedia mofo. Juro, juro que não queria, mas ele ficava em uma das gavetas da memória, as mãos cheias de bolinhas brancas.
Afora mais de 200 dias da última aparição real, as outras pairavam hora em tons pastéis, hora em tons vivíssimos sobre a janela que fica atrás da cama. A cama não era a mesma, nem a janela. A que nos olhava era mais alta, mas indiscreta, essa agora não tinha vizinhos curiosos, tinha sequer vizinhos.
Fato era que as naftalinas me incomodavam, entravam na mente sem memória, cheia de obsessões. As bolinhas conservavam uma barba, cavanhaque às vezes, às vezes nada; conservavam cabelinhos cacheados e um sorriso maroto e difícil. Ah, como eu queria esmagar as naftalinas com a ponta dos pés de uma vez para sempre, a viagem para a Alemanha ficaria com bagagens mais leves e itinerário menos diluídos por países não germânicos.
Ah, malditas naftalinas. Tentei trocar seu perfume infernal por outros, mas não pude. Mesmo aqueles cheiros que mais me agradavam tinham agora um ranço que me mantinha longe, razão desconhecida. Você, outro lado do planeta me tratava mal, tardiamente, esquecia de dizer bom-dia às duas da tarde, ou boa-tarde às dez da noite. Diacho, quantos dias eu dediquei à apreciação de naftalinas?!
Em falta no mercado por uns dois ou três meses, a abstinência se manifestou logo. Enfiei na cabeça que poderia superar o vício que tomou conta de meu cérebro e coração há quatro anos. Infelicidade, tremi por noites e dias e até me convenci curada. Certa madrugada, peguei a mim, era o espelho do banheiro quebrado, caco sobre a pia, mão sangrando. Sobre a parte repousada no resquício de água ficava um pó branco, naftalina. Inalada, não fazia mais efeito! Não fazia! Tamanha a falta, uma pequena dose não poderia suprir minhas entranhas, quem sabe eu tenha imaginado o espelho quebrado e a saciedade buscada.
Naftalina importada! Quero naftalina importada! Importada! Mandem buscar a naftalina espanhola, gosto de paella, gosto de gaspaccio, miga, chupito, absinto e comida fast-food nojenta. Quero, quero, quero como criança mimada e solitária que fui, meus desejos atendidos agora! A ilusão de conseguir seguiu-me durante anos, voltou agora com toda força: Dei-me conta de que nunca possuí os brinquedos que queria, o ponei e o biboquê, a casa rosa da boneca e os milhões de sapatos... Teria sorte agora... Mal remunerada no trabalho escravo (!) fiquei na naftalina nacional, havia formol e mais umas 400 drogas imbutidas na fórmula, me atirei do viaduto do chá, imaginário, claro. Nem em São Paulo pude estar em meu último suspiro.
Conservantes.
[04 de outubro de 2006]