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Ea abriu a porta e deu um sorriso de estrondo. Não podia acreditar no homem de barba e cabelos enrolados que batia mais uma vez e depois de tanto tempo à sua porta. Fez as honras da casa, tirou o maço de tulipas e o pacote que ele trazia nos braços, o sobre-tudo pesado – inverno rigoroso da Espanha, por incrível que parecesse – Deu um sorriso. E outro e mais quantos teve vontade, e tantos vieram aos lábios que não pode contar, não pôde porque fazia parte de seus músculos aqueles espasmos de felicidade, de contemplação.
Ea abriu a porta e deu um sorriso de estrondo. Não podia acreditar no homem de barba e cabelos enrolados que batia mais uma vez e depois de tanto tempo à sua porta. Fez as honras da casa, tirou o maço de tulipas e o pacote que ele trazia nos braços, o sobre-tudo pesado – inverno rigoroso da Espanha, por incrível que parecesse – Deu um sorriso. E outro e mais quantos teve vontade, e tantos vieram aos lábios que não pode contar, não pôde porque fazia parte de seus músculos aqueles espasmos de felicidade, de contemplação.
Mais uma vez, porta adentro.
Sentaram-se no sofá de tecido branco. Parcamente colocado contra a parede vermelha. Na sala bem iluminada trocaram sorrisos e sorrisos e olhares e olhares. As tulipas no vaso sobre o aparador a completar o ar faceiro que tomava conta do ambiente. E aqueles sorrisos que se seguiam e agora pareciam de plástico e resina. Estava feliz, feliz, feliz.
Mais uma vez. Sentados. Lado a lado. Os tênis all star. A calça jeans surrada. Camiseta de uma só cor. Sorriso. Sentados. Pernas cruzadas sobre o sofá, a almofada no colo, gestos, as mãos sobre a almofada. Calça de linho cru, bata branca, um colar de muitos brilhos e cordas e couros e pedras. Confundindo o olhar que parava nos detalhes das unhas das mãos em descuidado lascar nos cantos. O esmalte claro. Nos pés nus sobre o tecido fino e fofo.
Conversaram. Era cinco da tarde. Ela foi à cozinha, retirou uma tábua, uma faca do armário. Escolheu cebolas, alhos, tomates, temperos: manjericão, pimenta, sal. Sempre salgava demais. Lavou-os, cortou, chorou quando delicadamente fez partir as entranhas da cebola alva. Ele a tocou nas orelhas, a mão de um lado e a língua de outro, ela esquivou-se erguendo como reflexo a ponta da faca. Sorriu mais uma vez.
Ele escolheu os pratos, talheres e copos enquanto o molho simples ficava pronto. Ralou o queijo e cuidou dos guardanapos de linho, da música antiga que tocava.
Ela provou a massa, dama e vagabundo. Ela provou com a ponta da língua a acidez do sugo, colocou o toco de queijo na boca dele e mais e mais e mais e pela última vez sorriu.
Ele ficara com a boca cheia daquele apanhado de gosto bucólico e ela levou a salada fresca cheia de flores à mesa. Perfeitamente. Sentaram para comer, sentaram para celebrar o reencontro de anos. O reencontro de vidas e palavras.
Ela partiu um pedaço de pão que ele trouxera da Itália. Comeram e não falaram, como se fizessem parte de uma família regrada pelo patriarca autoritário, nenhum som além dos talheres batendo contra as louças. A mastigação competente dos dentes brancos de ambos. Ou nem tão brancos dela. Anos de tabaco que ele tanto condenava. Um brinde de silêncio, elegantemente os copos distantes e os pés por debaixo da mesa. Ele recuou a perna quando ela tentou tocá-lo. Ela sorriu, agora pela falta de graça, pelo constrangimento, e não pôde compreender o porquê, por que estaria ele ali, frente a frente, o corpo um pouco reclinado sobre o prato que se eximia da mesa. Foi sempre assim, quase dez anos e nada mudara.
Ela acenava, ele virava as costas e corria, mesmo que quisesse ficar ali parado, ele corria e corria sem nunca olhar, sem nunca voltar a cabeça. Mas seus olhos, ah seus olhos sempre se enchiam de lágrimas ao pensar no que ficava para trás.
Voltou do devaneio, ele erguera um pouco o copo de vinho e ela retribuira o brinde, formalidades à parte sempre ficavam um pouco quietos, um pouco sem palavras. Antigamente ele apenas tocava os cabelos curtos dela e no meio da noite a envolvia vagarosamente, a envolvia e beijava de leve qualquer parte próxima dos lábios... os ombros, ela se mexia como um gato que procura aconchego e acariciava as mãos dele, acariciava com o rosto o braço quase menino e tão mais velho, tão mais vivido que os dela.
Os lençóis cor-de-rosa, os lençóis azuis, alternados na pobreza singela dos anos de faculdade, agora memória regozijada e longe daquela mesa e daquelas tulipas na sala. Num tempo em que as salas de jantar se faziam em puffes e não importava o vaso de gérbera na área da casa vasta, naquela época fizeram valer dias esparsos em que compartilhavam algumas horas e mais algumas garrafas de cachaça ou vodka.
Os dois perdidos nas tulipas como se opiaceamente um flashback acometesse ambos, deixaram os copos sobre a mesa, voltaram para a sala e dois dedos de prosa: a banda dos tempos das festas de república, o que foi feito dos velhos amigos, o que foi feito deles...
Ela abriu a boca para dizer algo e ele a olhou como fazia antes, foi ao seu encontro, beijou. O mesmo gosto, os mesmos movimentos em sincronia. Ambos provaram inúmeras bocas durante os anos de ausência, mas nenhuma suprira aqueles vácuos que nunca tinham lugar no beijo deles. Ficaram assim por alguns minutos, as bocas unidas e os corpos ainda afastados.
Não sabiam mais nada sobre a crise mundial, pouco importava o valor do Euro, pouco importava todas as desavenças e erros que haviam cometido. Cobertos por uma vontade de se colarem, afoitos por misturar odores e fluidos não viram a tarde partir, o sol se por. Ela o trouxe para o sofá maior, fez com que o corpo pesasse sobre o corpo, deixou as mãos dele invadir os esconderijos que as roupas largas poupavam, deixou que mais uma vez o sorriso povoasse seu rosto. Abraçava-o com toda a querência doce e proibida dos amantes mais shakespearianos, mordia seus lábios como as devassas mais calientes de Bukowisk.
Passou a mão por debaixo da blusa dele e desabotoou o cinto, as calças jeans, as puxou vigorosamente para desobstruir o caminho, alcançou o membro ereto ao tempo em que ouvia o gemido surdo. Ele a puxou pelos cabelos, beijou, tirou a blusa e lavrou os seios como a terra mais fértil.
Cabelos puxados mais uma vez, costas a mostra, nuca, mordidas que retiravam torrões de pele e corpo e alma. Entregaram-se à noite hispânica com fervor de pimentas.
Na manhã, os corpos largados no langor do sofá maculado, ele deixou-lhes um beijo na face, roubou uma tulipa com cheiro doce de chocolate, derrubou outra. O final das histórias nunca muda.
Ela acordou, levantou. Recolheu a louça, lavou cada talher mais de uma vez, poliu a prata, secou os copos até ouvir o barulho do linho contra o cristal, secou e guardou a louça, bateu a toalha no tanque. Tomou um copo de água e mais dois goles, deixou o copo com o resto sobre a pia.
Caminhou até o quarto, escolheu uma roupa, a que mais gostava, tirou as peças que havia recolocado, entrou no banho, demorou mais que o de costume, não ligou a banheira ou gastou os caros sais de banho. Saiu, secou-se passou um creme sobre a pele branca, perfumou-se, penteou os cabelos. Colou a roupa e vestiu os pés com botas de camurça clara.
Tirou um livro da estante:
“I know the bottom, she says. I know it with my great tap root;
It is what you fear.
I do not fear it: I have been there.
Is it the sea you hear in me,
Its dissatisfactions?
Or the voice of nothing, that was you madness?
Love is a shadow.
How you lie and cry after it.
Listen: these are its hooves: it has gone off, like a horse.
All night I shall gallup thus, impetuously,
Till your head is a stone, your pillow a little turf,
Echoing, echoing.
Clouds pass and disperse.
Are those the faces of love, those pale irretrievables?
Is it for such I agitate my heart?
I am incapable of more knowledge.
What is this, this face
So murderous in its strangle of branches?—
Its snaky acids kiss.
t petrifies the will. These are the isolate, slow faults
That kill, that kill, that kill.”
Não pôde sair. Os pães esfriavam nos cestos da padaria.
[09 de agosto de 2005]