[arquivo]
7h58.
7h58.
Acorda.
Os olhos ainda baços de álcool, tabaco e amor, olha em volta e tenta reconhecer o espaço. Os móveis são escuros, o quarto claro. Está sozinho. Ela o deixou dormir e ele lembra deste instante quando os últimos beijos foram dados e o rosto agora só fazia sentido na memória, pois perdiam-se o traço marcado e os olhos jabuticaba tão físicos há pouco.
Ele levanta, ao lado da cama alguns sapatos, masculinos como os dele. De repente, dá-se conta que ali estavam muitas coisas que talvez não devessem continuar juntas com as dela. Gravatas, pesos de papel, cadernos de anotação. Não pode mais sentir-se presente naqueles cômodos modestos e cheios de um carinho noturno.
Olha em volta, no quarto, sala e banheiro. Não toca em sequer uma peça, mas presta atenção em tudo que a vista, por si só, pode alcançar. Doem-lhe os olhos, mesmo que egoísticamente, mesmo que sem propósito. Doem-lhe. Doe-lhe pensar que invadia, doe-lhe tanto resquício daquele amor.
Arruma os sapatos pretos que haviam estado por toda a madrugada no canto do sofá, coloca as calças e ajeita a gravata que trazia. Vai até o banheiro e lava o rosto marcado pelos travesseiros. Caminha e gira a chave na fechadura. Dali para a frente, é incógnita.
[29 de maio de 2009 ]