quinta-feira, 24 de setembro de 2009

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Cadê as horas? Os dias?

Perdida sem pressa no caminho reto quase torto. Fiquei sentada no breu, frente à cama que não dorme. Fiquei lá, mãos sobre o joelho, joelho junto ao peito, peito ausente. Tentei chorar, rir, sofrer. Felicidade de séquito. Mas nada foi possível na escuridão amarga. Nem pensar na personagem, nem correr contra a parede.

Em frente, meio passo, uma vela de cor indefinida. Rezei para a alma de meu filho, não nascido. Rezei vagarosamente e ouvi um adeus que não queria dar. Ouvi um adeus que soou verdadeiro e magoado. Não consegui resolver os dias que perdi. Feliz de vocês que ainda podem.
[13 de maio de 2005]
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Mariana
Marejada
Mantém-se afastada
Mandou-lhe um beijo
Matou-se depois
Deixou-lhe uma carta.

Cadê?
[03 de maio de 2005]
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DIAS QUE SE FAZEM IGUAIS
NESTAS HORAS REPETIDAS
DIAS QUE PASSAM SEM PAR
NESTES ANOS DIFERENTES
HORAS, DIAS DE HISTÓRIA
HORAS NAQUELES DEVANEIOS LOUCOS
DE AMORES INCONSEQÜENTES

(Para DB e GF)
[03 de maio de 2005]
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Não fosse isso
era menos
não fosse tanto
era quase

Paulo Leminski
[28 de abril de 2005]
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Eu encontrei quando não quis mais procurar o meu amor
E quanto levou foi pr'eu merecer
antes um mês
e eu ja não sei...
E até quem me vê lendo o jornal na fila do pão
sabe que eu te encontrei
E ninguém dirá que é tarde de mais
que é tão diferente assim
Do nosso amor a gente é que sabe...
(ahhh vaaai)
Me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém afim de te acompanhar
E se o caso for de ira à praia eu levo essa casa numa sacola!
Eu encontrei e quis duvidar tanto clichê deve não ser
Você me faloupr'eu não me não me preocupar
ter fé e ver coragem no amor
E só de te ver eu penso em trocar a minha TV num jeito de te levar...
A qualquer lugar que você queira e ir onde o vento for
que pra nós dois sair de casa já é se aventurar
(ahhhhhhh vaaaai)
Me diz o que é sossego que eu te mostro alguém afim de te acompanhar
E se o tempo for te levar eu sigo essa hora e pego carona...
Pra te acompanhar!

Los Hermanos
[20 de abril de 2005]
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Não dá pé não tem pé nem cabeça
Não tem ninguém que mereça
Não tem coração que esqueça
Não tem jeito mesmo
Não tem dó no peito
Não tem talvez
Ter feito o que você me fez
Desapareça cresça e desapareça
Não tem dó no peito
Não tem jeito
Não tem ninguém que mereça
Não tem coração que esqueça
Não tem pé não tem cabeça
Não dá pé não é direito
Não foi nada eu não fiz nada disso
E você fez um bicho de 7 cabeças
Bicho de 7 cabeças
Bicho de 7 cabeças

Zeca Baleiro
[01 de abril de 2005]
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Saiu como se fosse para um parque com roda-gigante e algodão doce. Entrou no carro: Ar frio. A casa: Ar frio. Amenidades que convém aos bons amigos de muitas águas. Beijos sem gosto; gosto de nuvem. Água clorada. Pouco mais de duas horas, mais água. Bruto tirou toda a pureza de seus dias, devolveu apenas a pureza que sorri sem dentes. Vermelho deixou correr pelos grãos de pó, pelas tramas do tecido uma enxurrada de folguedo.
[03 de março de 2005]
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Arrancou uma parte que, até então, fez a diferença e agora em nada faltava. Sangria de sorrisos por todo aquele ambiente fresco. Da pele-boca, boca-gosto sobrou um grito frouxo, um riso agudo.

Daquela hora quase meia, duas tantas pernas em vias da terceira, quarta, mudaram a vida na medida da física. Corpos que ocupam o mesmo único lugar na hora. Espaço opaco. Luz quase inteira, óculos lançados fora, nem rosa, nem cacto. Paixão de meio instante que não deixa rastro.
[01 de março de 2005]
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PARECE-ME QUE DEVERÍAMOS APENAS LER LIVROS QUE NOS MORDAM E ESPICACEM. SE A OBRA QUE LEMOS NÃO NOS DESPERTA COMO UM GOLPE DE PUNHO SOBRE O CRÂNIO, QUAL A VANTAGEM DE A LER? PARA QUE NOS TORNE FELIZES? MEU DEUS, SERÍAMOS DA MESMA FORMA FELIZES SE NÃO TIVÉSSEMOS LIVROS. E OS LIVROS QUE NOS DEIXAM FELIZES, A RIGOR, PODERÍAMOS ESCREVÊ-LOS NÓS MESMOS. EM CONTRAPARTIDA, PRECISAMOS DE LIVROS QUE SOBRE NÓS ATUEM DE MODO IGUAL A UMA DESGRAÇA; QUE NOS FAÇAM SOFRER MUITO, COMO A MORTE DE QUEM AMÁSSWMOS MAIS DO QUE A NÓS MESMOS; COMO UM SUICÍDIO. UM LIVRO DEVE SER O MACHADO QUE ROMPE O MAR GELADO EXISTENTE EM CADA UM DE NÓS.
Franz Kafka
[25 de fevereiro de 2005]
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“Gastei uma grana filha-da-puta”, pensou em meio aos dedos que vasculhavam a carteira quase vazia. Deu de ombros e desceu do ônibus que começava a se encher com todos aqueles trabalhadores matinais. – “Como podem acordar a essa hora”? Ele que estava indo para a cama naquele momento. Bateu no bolso, sentiu o peso das chaves, as apanhou e testou umas três até achar a que realmente pudesse abrir a porta.

“Ces't moi... Ces't moi”... A loucura de minhas próprias criações. Deu de cara com as telas mal acabadas e deixadas de lado. Era um fracasso completo como pintor. “Mas o que faria se desistisse dessa vida”? Adorava os café e as prostitutas, e digamos, que essa profissão lhes dava um terno charme decadente.

Sempre que saía de casa pensava em um quadro de Van Gogh: Aquele café era como toda a essência de seu mundo. Condensava todo o apelo noturno na tela e desejava que os pardieiros que freqüentava se tornassem cheios de cores e vida e ócio.

Entrou em casa, a mesa que se via da porta ainda estava bagunçada: Tintas, óleo de linhaça, pincéis de vários diâmetros, pontas chatas e redondas, pedaços de comida velha e uma garrafa de água ardente pela metade. Abraçou-se à Ypioca querida e... "Love love me do... You know I love you..."

Deixou a garrafa sobre a mesa, estendeu-se na cama desarrumada.
[21 de fevereiro de 2005]
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V A G A S
Há vagas nas vagas
V A G A S
[12 de fevereiro de 2005]
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A mudança que cala e não muda
Terra vaga que consome
A queixa queixoza que não cessa
Na boca da criança cavernosa
Tens coração de engenho
Mãos de aço, perfume incerto
Cores serenas de dias corais

Na cor que muda da treva ao zelo
Do ar ao credo

Do inferno à rosa...
[12 de fevereiro de 2005]
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O homem

Daqueles músculos restou pouco. As pernas rijas eram mais ossos que carne, ossos tenros e sensíveis escondidos por debaixo das calças amarronzadas. Tinha joelhos salientes que faziam o tecido balouçar quando batia ritmada a perna. Quase encosta e não toca. As mãos com os dedos tocando mútuos suas pontas. Mão singulares, doentes sei eu, os dedos sem a melanina que os fazia inesquecíveis. Aquelas mãos eram pesadas e duras, macias e calmas. Tocavam as cabeças de seus continuadores com densidade. Muitos odores, perfumes sextavados nas últimas gavetas. O espelho de cristal, os móveis escuros, no criado mudo as abotuaduras, terços, prendedores de gravata o anel de rubi. Travesseiros altos e ternos talhados, loção pindorama e muita pós-barba que nunca ficara por fazer. Dois óculos de aros diferentes e um relógio de corda. Os sapatos alinhados trocados pelos tênis, trocados por chinelos. As meias finas aparentes - agora - em sua fragilidade imensa. A cabeça inclinada para trás, o ronco, os banhos de luz e remédios mais que fitoterápicos, remédios demais pelas manhãs e noites, almoços e cafés da tarde. A falta de açúcar que lhe fazia doce, os documentos e os guardados. Fotos e cartas com flores secas, memórias velhas como rugas. O pão escuro que deixou de ser comprado...

O trabalho

As horas perdidas com os livros de bolso, faroestes baratos. A caixa com dinheiro e coisas de valia no fundo da loja empoeirada. O ferrão do escorpião negro que prendia seu dono, as vulgaridades dos aros de bicicleta e dos cristais... a cadeira de sustentação azul, as cadeiras de madeira velha. Calculadora comprada a custo. Jornais para embrulhar. Cartões em branco.

O quarto

A cama no meio do corredor de três portas, a cortina vermelha e o leito baixo. O abajur bicolor. Dentaduras no copo, ciroulas brancas, gravatas chinesas, presentes com cara de bonecas que choravam e sapatos de verniz colorido...

O avô

Continuou alí ao lado olhando, como sempre fez. Sorriso para a vida que passa sob o sol na calçada da frente. Folhas secas pelo chão, vassouras naturais. Disciplina e ordem na firmeza doce. Esteve depois de oito anos sentado novamente, camisa de listras e a calça quase musgo. Relógio no braço e os óculos de aro marrom. Cabelos ralos entre cinza e branco... sorriso largo. Eu o senti.
Na foto recortada, bengala, chapéu de lado e terno asseado, época que quisera eu tê-lo conhecido.
Cuidou, orou, velou, ninou, partiu.
[02 de fevereiro de 2005]
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de quando se quer morrer
e a caneta corre vaga
no silêncio da música
além da pausa d
e cortar os pulsos
na hora rasa
poesia insana que depara
a boa seca e devassa
queda-se em silêncio
cala
[27 de janeiro de 2005]
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Casas paredes sem caimento Cairam
Soterraram os corpos dos homens
Chorou de leve a manta toda.
[05 de janeiro de 2005]
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Desafortunado. Perdeu os dias contando as moedas de 10 centavos. - Ela não pôde assimilar o quanto valia a pouca nota. Três dias depois não tinham pão ou leite para comer. Vinte e quatro ou cinco horas de jejum. Ela tirava as colheradas da boca descarnada de sua mãe. - Cadê o remorso?! Parou na padaria ao lado e comprou um brioche.
[26 de dezembro de 2004]
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Estou tentando juntar as linhas para coser os trapinhos em seus antigos lugares, pontos-finais, exclamações e vírgulas.
[15 de dezembro de 2004]
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DERRADEIRO SENTIR DE PERFUMES? ODORES?
A OBESIDADE ME PRENDE EM CASA, NÃO PASSO PELA PORTA
A OBESIDADE ME PRENDE EM CASA, NÃO PASSO PELO ESPELHO
A OBESIDADE PRENDE MINHAS MÃOS, FUI À GELADEIRA E COMI OS OLHOS DA CULPA
[24 de novembro de 2004]
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Se passo pela escada avessa ao desatino
esbarro delicado no dia, no seu caminho

Se passo pela janela porteira avessa do dia
esbarro no caminho, sem o seu
sozinho

[03 de novembro de 2004]
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tem sabor de cravo.
cor de cravo.
infinitamente mais exótico do que cravo.
quero pegá-lo nos braços italianos do estômago.
[03 de novembro de 2004]
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Tudo é vago e muito vário
meu destino não tem siso,
o que eu quero não tem preço
ter um preço é necessário,
e nada disso é preciso

Paulo Leminski
[03 de novembro de 2004]
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Frases contra-tempo. Beijos contra ele.
[02 de novembro de 2004]
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O bolo de chocolate com aquela calda estúpida estava esperando o dia quente fazê-lo frio. As duas senhoras conversavam na parte inferior do sobrado que ficava na rua tranqüila do Bairro da Lapa. O Aqueduto podia ser visto da janela da sala. Sofás humildes, uma lamparina muito antiga enfeitava o canto da sala, era assim o ambiente quase espartano...
[16 de outubro de 2004]
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Assim: "Olá." - Simplesmente. E Você fica olhando a mesa ao lado, as desculpas que não vem. E ali apenas o olá... pairando sobre os copos ligeiramente vazios.
[08 de outubro de 2004]
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As quatro

Tenho uma amiga de um metro e sessenta e poucos, cabelos pretos e compridos. Ela não gosta que afaguem seus cabelos lisos, mas um dia fiz carinho em sua cabeça, como uma mãe. Fiz carinho...


Tenho uma amiga de cabelos lisos que faz gelo para vender e ganhar uns trocos pra comprar balas e caramelos. Sua mãe não quer mais lhe dar sequer um pirulito daqueles que se faz quando a calda do pudim está quase pronta.

Tenho uma amiga que me quer bem, um dia brigamos e chorei muito. Acho que foi porque risquei um de seus patins, mas não tenho certeza. Lembro que era um dia de verão e eu estava de sapatinhos vermelhos.

Tenho uma amiga que vez por outra segura minhas mãos e deixa as lágrimas virem à pinta das palpebras. Segura antes que elas percam o rumo de casa, fiquem vagando pelas bordas.

[08 de outubro de 2004]
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Fiz a escolha certa, no dia errado e mais vadio. Desmenti aquela resposta enviesada e desviei o olhar entre a primeira e a última cerveja. Perdi a linha de raciocínio. Perdi a seqüência lógica dos fatos. O sapato envernizado correspondia a essência perdida de meus passos. Os bicos dos sapatos são como as bocas: Trazem a boa ou a péssima nova.
[05 de outubro de 2004]
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Cortou os pulsos essa manhã. O sangue escorreu tão vagarosamente que sentia cada parte do corpo menos úmida. Narrador póstumo, deixou que as mãos fossem enfaixadas sem reclamar, mas depois do acontecido não conseguiu segurar o telefone quando a mãe ligou para perguntar se estava em algum plano futuro.

A boca não podia mover-se, mas os ouvidos ainda estavam vivos e capitavam a pergunta que veio indefinida e com tom de angústia. Não podia responder. O sangue vazava pelas válvulas coronarianas, pelas veias e artérias: Chu-áá. Na cartinha, o pedido: “Não rezem aves-marias e padres-nossos”. Pediu em uma nota, entre parenteses, que colocassem (uma música cor de tangerina) na hora do sepultamento. Para os próximos telefonemas, notícias em pílulas santinas.

Agora, cerca de meia hora passada, seus olhos detinham milhares de motivos para estar mais calmos. Sem pressa arrancou com as mãos vazias as pupilas. Como quando, cruel, rasgou uma nota de cinquenta para afrontar o avô, agora desperdiçava gota a gota seu sangue de despedida, de água, de louça, de ferrugem, de imigrantes, de torrentes em uma tentativa vaga de esconder os olhos. Tinha vergonha de que alguém, quem quer que fosse, lê-se os motivos tão mesquinhos.
[25 de setembro de 2004]