Não havia pensado nos últimos dias sobre "o fim", mas sabia, era necessário ao meu coração de açúcar e mimo sentir-se pesado e fazer todo o drama que lhe cabe. Não chorei, não senti. Apenas fiquei com a cabeça recostada no travesseiro fofo e era capaz de meditar sobre apenas o nome, o nome, o nome. Não podia lembrar, e queria, naquele instante, de um beijo ou do som da voz. Senti um dolorido constrangimento em entender que não havia sobre o que lamentar. Era a perda. A dura e velha perda que vinha diferente agora, com os quilos a mais, as olheiras a mais. Era uma perda nova e insosa, ao revés das desilusões embotadas de mel. O simples nome martelou e martelou e juntou-se a alguns outros. Todos perdas. Embolaram-se, confundiram-se e eu quedei-me quieta no sonho longo. Na cama, além do corpo que recostava-se pesado, a ausência: Não há como perder o que não há.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Não havia pensado nos últimos dias sobre "o fim", mas sabia, era necessário ao meu coração de açúcar e mimo sentir-se pesado e fazer todo o drama que lhe cabe. Não chorei, não senti. Apenas fiquei com a cabeça recostada no travesseiro fofo e era capaz de meditar sobre apenas o nome, o nome, o nome. Não podia lembrar, e queria, naquele instante, de um beijo ou do som da voz. Senti um dolorido constrangimento em entender que não havia sobre o que lamentar. Era a perda. A dura e velha perda que vinha diferente agora, com os quilos a mais, as olheiras a mais. Era uma perda nova e insosa, ao revés das desilusões embotadas de mel. O simples nome martelou e martelou e juntou-se a alguns outros. Todos perdas. Embolaram-se, confundiram-se e eu quedei-me quieta no sonho longo. Na cama, além do corpo que recostava-se pesado, a ausência: Não há como perder o que não há.
[arquivo]
São dois anos. Dois. Um reencontro. São duas pessoas, duas bocas. Duas, não quatro. Dois corações e mentes. Quatro, não dois. Pulmões mais ou menos estragados, línguas mais ou menos ácidas, mãos mais ou menos fortes. Dois peitos, os dela. Dois sexos, de ambos.
Não era matemática como ela gostaria. Era sentimento que não existia e foi sendo cultivado, cultivado. Semente plantada com força no primeiro dia. Regada e revolvida no segundo tempo da terra fofa.
Agora já não podia esquivar-se, ao menos ela, da responsabilidade que sua irresponsabilidade criara. Era amor - ou algo parecido - o que sentia dia a dia. Estava em paz com o espaço, em guerra com o tempo. Porque, na matemática nunca fora aluna exemplar e da adição de um mais zero, teimava e desejava que o resultado fosse dois. E da adição de um mais um, talvez quisesse que o resultado fosse um.
7h58.
Não sei o que fazer com meus rompantes, assim como não posso resolver o problema da roupa suja que se acumula.
________________________
A alegria do dia veio faceira e mutável. Era afeita às químicas que devendam imagens. No parco espaço cabia os olhos puxados e sorridentes, cabia também o coração puro de Ogava.
Era frio: Que doía.
Era choro: Quente, soluçado.
Era palavra: Verdade inconveniente.
Era beijo: Suspenso.
Era futuro: Covarde.
Era presente: Triste.
Era passado: Curto, intenso, feliz.
Era desejo: Inconcreto.
Era vergonha: Indigna.
Era dignidade: Perdida em um canto do quarto.
Era carinho: Robusto, complexo.
Era olhar: Embaçado.
Era língua: Bêbada.
Era. Foi.
[13 de dezembro de 2008]
Os olhos portugueses me espreitam
Correm pela pele branca, pela carne rosa
Os olhos portugueses são doces
Pastéis de Belém e Santa Clara
Os olhos portugueses pedem
Brilham, são lascivos.
Plumas pesadas em doses certeiras.
Os olhos portugueses conquistam
Arrancam pedaços, estrangulam desejos.
Os olhos portugueses fizeram coração sorriso
Passo correto para a felicidade instante.
(Para Süß).
[01 de dezembro de 2008]
Vivo condenado a fazer o que não quero
Então bem comportado às vezes eu me desespero
Se faço alguma coisa sempre alguém vem me dizer
Que isso ou aquilo não se deve fazer
Restam meus botões...
Já não sei mais o que é certo
E como vou saber
O que eu devo fazer
Que culpa tenho eu
Me diga amigo meu
Será que tudo o que eu gosto
É ilegal, é imoral ou engorda
Há muito me perdi entre mil filosofias
Virei homem calado e até desconfiado
Procuro andar direito e ter os pés no chão
Mas certas coisas sempre me chamam atenção
Cá com meus botões...
Bolas eu não sou de ferro
Paro pra pensar
Mas não posso
culpa tenho eu
Me diga amigo meu
Será que tudo que eu gosto
É ilegal, é imoral ou engorda
Se eu conheço alguém num encontro casual
E tudo anda bem, num bate papo informal
Uma noite quente sugere desfrutar
Do meu terraço, a vista de frente pro mar
Mas a noite é uma criança
Delícias no café da manhã
Então o que fazer
Já não quero mais saber
Se como alguma coisa
Que não devo comer
Se tudo que eu gosto
É ilegal, é imoral ou engorda
Se tudo que eu gosto
É ilegal, é imoral ou engorda
Será que tudo que eu gosto
É ilegal, é imoral ou engorda
Robertão é um gênio!
[06 de novembro de 2008]
Se fosse um 'poeta' romântico, a despedida seria:
"Nos dias frios de abril, não pude ser feliz
Quedei-me nos andares baixos, numa escada sem degraus.
Nos dias quentes - foram poucos - além do sol ladino
batia nos olhos, olfato que se vê, lufadas podres daquele rio morto.
Eu já não tinha viço. Eu já não tinha minhas horas necessárias".
Eu, apenas.
O coração dói. Bangunçado em um devaneio.
Na corrente vermelha era só misto de angústia, sorriso e uma tristeza rouca.
Para trás a metrópole: seus carros, desentendimentos, acasos.
[provavelmente entre setembro e outubro de 2008]
Ele tinha os dentes bons
Roupa nova há três dias no corpo
Sobrancelhas salientes
Alguns quilos a mais.
Nada disso o fez mais másculo,mais desejável.
Mas, mais uma vez perdi o medo.
O sol da manhã nasceu sorrindo, atrás das nuvens.
E eu aqui, desfazendo os nós sob a chuva.
[provevelmente entre setembro e outubro de 2008]
Brinca com luz.
Joga,
logo mais sai correndo
O obturador parado num centésimo do tempo
Reescreve dias,
cores, caras, sentidos
Redesenha a cidade,
os beijos e becos
Não dá-se conta da não luz que passa rente,
espreita
Tem roupa cheirosa de bom dia
Rosto marcado de juventude
Um coração suave de vento.
[26 de agosto de 2008]
Minhas mãos estão preguiçosas. Na verdade , todo o ano passou assim. Tive poucas ganas de sentar e deixar o pensamento correr. Agora é tarde. Os olhos pela manhã estavam cerrados, mesmo que tentasse abri-los não havia maneira. Passei a mão pelas pálpebras e lá estava a causa: dois riscos, um para cada olho.
Não pude chorar, gritar de horror pela negrura da manhã. Não pude. A escuridão era cadenciada e, até certo ponto, conveniente. Talvez fosse tudo o que eu havia procurado. A visão negra de horas tristes.
Sentei-me na beirada da cama, tateei o chão com os pés e encontrei os chinelos. Caminhei como se a cegueira houvesse me acompanhado há muitos anos. Acendi as luzes do banheiro como se a claridade fizesse diferença além da sensação de quentura.
Aconteceu assim, como? Na verdade eu não fiz questão de guardar com precisão na memória já gasta. Talvez, dessa vez, não quisesse consciência do dia e dos minutos que se seguiam, talvez dessa vez, tivesse eu criado uma carapaça que recobrira as pontas dos neurônios evitando a sinapse que levaria a lembrança, por medo, puro e simples de ter que conviver apenas com o recuerdo por algumas semanas.
Mas, a despeito da mente, os dedos e olhos fizeram o favor de registrar o tempo curto entre o desconhecido e o amor próximo. Ele tinha uma tatuagem no ombro esquerdo, grande e cheia de um rugido rouco. Tinha cabelos cacheados, como o amado de outrora. Tinha dentes marcados de nicotina e uma barba rude a ser feita. Tinha dedos gordinhos nas mãos e os pés bonitos, assim como os ombros, assim como os olhos. Uma fala forte e doce, cheia de uma sutileza de nenúfar.
Ele, foi sincero. Eu, fui fugidia e, apenas desta vez, deixei o orgulho de lado e entreguei os lábios a ele. A história começou numa noite lancinante de sexta-feira. Era uma casa desconhecida, pessoas desconhecidas e uma sombra azul projetada na sala de entrada. Ela, a sombra, guardava cada movimento da casa e guardaria mais tarde o enroscamento de corpos perpetrado pelo casal inusitado.
Ele chegou depois de mim. Eu fui para uma despedida de um cara que mal conhecia. Ele sorriu e guardou dentro de si o olhar que eu despejei feito espuma pelo quintal imundo. Ele e eu conversamos sozinhos num canto mal iluminado e depois de alguns minutos nos separamos, tomamos caminhos opostos. Ele, rápido, tomou-se por completo, tornou-se distante nos braços da menina de saia branca e mãos de cientista. Eu, resistência derradeira, afoguei os olhos em um copo com gelo, gelo para esfriar as tripas, as entranhas.
Fim de noite, um a um todos foram para suas casas, seus refúgios, suas bocas, suas traições, seus colos. Um a um, novos amigos tornaram-se estranhos novamente, porque dali pouco, quase nada, seria guardado na memória. Na vitrolinha rodava um som que ela desconhecia e ele, já órfão das mãos de pipeta e kitassato, cantarolava.
Nós, sentados, lado-a-lado nas cadeiras bambas ficamos falando das estrelas e apontando-as, sem medo de que verrugas nojentas brotassem nas pontas de nossos narizes perfeitos. Uma frase, daquelas clichês de quem troca o certo pelo duvidoso e eu me rendi, alheia de mim, a ele, seguro e voraz de si.
Começou, sem porque, a história de 24 horas unidas e sempre, mais juntas em apenas 72. Juntaram-se, colaram-se, atracaram-se no calor absurdo da cidade que acalorava os corpos. Juntaram-se, uniram-se e, sem pensar que as horas conhecidas eram realmente poucas, fizeram-se um, como se de outras vidas ali regressassem, como se de muito tempo ali se reencontrassem.
Trocaram-me por um punhado de solidão. Era quinta, fria e docemente convidativa a apenas uma cama. Trocou-me sem pensar duas vezes por dois copos ou, quem sabe mais, de cerveja, cerveja que naqueles dias decia amarga e gelada demais, chegando a espumar em partículas de gelo. Eu, fiquei entregue a um sono livre de pesadelos, enquanto ele, cabelos enrolados agarrou a garota com nome de anjo pelo pescoço e encostou-a contra a parede de chapiscos, torturando as costas, torturando... Deixando marcas roucas na pele escura.
Era um mundo paralelo, onde uma ninfa de azul voaejava por sobre outras divas. Nesta terra gnomos saltitantes e amores de outrora tinham uma força imensa. Eles tomavam uma espécie de pão líquido e fumavam arguile. Todos ficavam felizes. A terra agora só durava quatro dias.
[arquivo]
Quase 48 horas de uma loucura mansa, Cris ali jazia, quase alma na cama descompromissada de Ubaldo. Eles se desconheciam e se tinham a pouco mais de quatro horas e ali já estaria findo o relacionamento. Era grande o vazio que ficara entre as coxas, era grande o prêmio ali depositado e rejeitado logo mais.
Saíram de uma festa com luz negra, velas e muita cerveja, nem amigos em comum tinham e por medidas de segurança não envolveram mais que os corpos naquela conversa fragmetária.Um dia antes Cris estivera desbotada em um quarto cheio de coleções, ali encontrara por um momento tudo o que procurara em outros braços, seria um amor verdadeiro e nada apático, o nome bonito: Fernando.
Ele fez cicatrizes com a barba em sua pele alva e um buraco imenso no estômago, daqueles que ficam pedindo o revés, a outra face do dia seguinte.
Mais uma vez Cris perdera as estribeiras da vida e deixara o coração esbranquiçado de nuvens que encobriam a hora exata que os fatos aconteceram... Sabia apenas que fizera a escolha errada mais uma vez, e que a escolha certa não a queria novamente.
Acho que amou Fernando com a intensidade de todos os dias que ainda seriam vividos, Ubaldo foi um caso, um caso que ela espera não frutifique.
[04 de dezembro de 2006]
Era esta a hora, 23h21. Saía de casa apressada com um laço de fita pregado ao pescoço. Andou muitos quarteirões e pousou os pés porta adentro em uma espelunca em tons White Stripes, ela fita vermelha, ele humor negro.
Conservantes.
Fechou a janela pela última vez. O corpo jazia sobre a cama, ainda sem roupas e sem os preparos para o funeral que aconteceria daqui pouco mais de catorze horas. A família toda estaria na pequena cidade em questão, também, de horas.
O velho patriarca morrera no hospital, sob olhar do genro que havia dormido todos aqueles dias na cama ao lado. A filha ficara com a neta em casa, a menina era ainda criança e a mãe tentava poupar-lhe o sofrimento de ver o avô nas últimas horas. Estava ele desenganado em seus 89 anos.
Foi numa noite nem fria, nem quente, daquela cidadezinha pacata que há mais de cinqüenta anos escolhera morar, que seu corpo jazia agora, sobre a cama. O quarto cheirava às flores que ali não estavam e no ar pairava uma música que tantos cantaram e que agora era de uma mudez invencível.
Vestiram-lhe o terno preto e a gravata de seda chinesa cinzenta, um terço de contas também cinzas, sementes e penduricalhos religiosos ficava enrolado nas mãos juntas, e ele ainda era tão bonito.
Naquela noite, a neta que dormia na cama da mãe acordou num soluço – O Vô morreu. Disse. A mãe com o coração apertado tomou-a nos braços enquanto o telefone tocava anunciando o quase óbito que se seguia. Ficaram as duas por um momento quietas e num choro convulso ouviram no quarto, que hora e meia depois abrigava o corpo inerte, um som de chuva que passava logo e ia feliz deixando a terra molhada.
Tudo pronto, os chás quentes nas garrafas e os cafés, algumas bolachas de sal e fatias húngaras para ele que não podia com doces. Envergado o negro, os lenços, os abraços iam seguindo até o último parente chegar, já passava das quatro da manha. Frio.
O corpo deixando aquilo tudo insoso, as pessoas com olhares tristes e amofinados até que se ouviu uma risada doce, duas crianças a rir, no fundo do velório, atrás das velas e coroas.
Os pais, os tios, olharam com desgosto para os pequerruchos ali, mas no fundo pensaram que o morto, ali estaria rindo com os olhos, se vivo. Ninguém soube, porém, que quem causara a risada sossegada fora o velho de bondade infinita e pulso firme que ali jazia.
Atrasado o enterro para a chegada da extrema unção pelo padre escolhido, ficara para as dezessete horas a descida do caixão. Tristes choraram filha, genro e neta, mais que todos. E numa pobreza esquizofrênica deixaram cair algumas flores sobre o tampo escuro do féretro.
Todos numa procissão deixaram o terreno santo ao cair do sol e do rosto que não mais veriam. Chegando à casa que o velho habitava com a filha, o genro e a neta, todos os parentes sentaram à mesa. As crianças que riram tão despropositadamente foram ao quarto da neta e ele, também neto, deitou a lembrança daquele dia num desenho: o sol quase posto, e pessoas palito saindo por uma rua onde as cruzes passavam e olhavam.
Anos depois, veio o avô povoar os sonhos da menina e acariciar seus cabelos quando estava só. Amores não morrem.
estou entrando em estado de coma
comer ou deglutir, eis a questão?!
______
-falta tudo aqui do lado
menos o que tenho nas mãos
________
-sonhos mortuários vem me visitar
fica o medo de pegar carona
___________
-perto é longe
longe é mais longe ainda
______________
-os músculos forçados pra evitar o coração em desconsolo
[26 de maio de 2006]
Ele abria seu coração aos poucos, esfinge que era, falava meio por ritmos, meio por gestos. Ficava esperando a hora passar quieto, as mãos metidas nos bolsos da jaqueta marrom - ou jeans - que insistia em usar, ou na maior parte das vezes, a segurar um copo pequeno com uma bebida destilada dentro. Ficava ali dando sorrisos, e ali poderia ser qualquer lugar, a frente da janela dentro da cozinha, os balcões sujos dos bares que buscava sem imaginação ou mesmo algum feixe de lençóis perfumados por cheiros adocicados e inebriantes. Seu coração falava sim, aos poucos, aos poucos mesmo, dizia sem pressa entre um sorriso e outro que as coincidências lhe diziam muito. Dizia que a calça dela era bonita e que não poderia amá-la vestindo meias brancas, listradas, quais quer que fossem. Falava marcadamente de cada um que conhecia e fazia parte de sua existência esplêndida, cheia de uma luz de penumbra e uma voz de crônica. Gostava das noites e mais ainda dos que nela habitavam, via nos andantes noturnos o que a felicidade representava, o que a tristeza, o que a vida. Numa das vezes que tentou abrir a boca, foi mais feliz ao usar as mãos, sempre quentes, para dizer que dela gostava, que se preocupava... Ou seria uma impressão provável... Nos diz-que-me-disse da vida, diante de seus olhos menos brilhantes, também diz que disse a alguém que aquela história era sem pé nem cabeça, isso disse com a boca, sem sorrisos tortos e sem olhares diretos. Não sabe ainda se foi sincero, porque diria, sempre e mais tantas vezes o contrário: a cabeça da história e o pé eram parte de uma trama que flutuava num mundo à parte, mundo que voltava periódico, geralmente no mês casadoiro de maio.
Era assim, quase sempre e até longe. Olhava a vida com um ar de desesperança que se tornava vida, olhava a vida com um ar de quem passou por ela muitas e muitas vezes. Para os outros, mais próximos era por vezes um louco que consumia muito álcool e algo mais em determinadas ocasiões, soltava frases insólitas, soltava comentários ácidos, soltava um bafo quente de cachaça tão naturalmente brasileira. Para os não próximos era pálido, esguio, meio languido quem sabe, ou a descrição seria a de um poltrão, quem sabe um excêntrico desventurado e cheio de pouco senso de humor e pouca frase na ponta da língua, língua essa que se metia na borda do copo ou dentro da boca (sua?!). Mas seria assim... Ficava entre a pergunta e a constatação distante. Seria o que pouquíssimos viam, seria a caricatura de sua próxima face. Estava naqueles dias distante dos olhos da moça que passava por ele no balcão do bar, estava distante do bar, aquele de sempre, pelo menos, estava ouvindo línguas diferentes e criadas em parte por sua embriagues verde. Seu cheiro, porém, não deixava os antigos lugares e as antigas paixões, os olhares que ele dirigia via as mesmas coisas em coisas diferentes e os cheiros eram cheiros de dar água na boca, dar água nos joelhos, nas mãos, nos pés, nos ouvidos e ele gostava imensamente daquelas sensações absurdas de sonho que o perseguiam desde a infância e agora eram mais fortes por alguns fatores externos. - Eu sempre me sinto só e trago restos comigo, restos daqueles para quem entrego pedaços de minha própria carne. Eu sempre digo sempre, porque em todas as horas sinto falta de algo que não compreendo, são faltas diferentes vertidas numa mesma imagem que vem bestamente entre frases que não combinam. Nessas e noutras noites, manhãs ou tardes, todas madrugadas os sonhos perturbam minha mente já não tão cheia de calmaria. Vejo rostos e sinto corpos de um passado que não pude ou quis viver em plenitude, sou um homem ao meio, metade felizmente encontrado nas amarguras do espelho, metade a perder-se ainda.
Who Loves the Sun
Who loves the sun
Who cares that it makes plants grow
Who cares what it does
Since you broke my heart
Who loves the wind
Who cares that it makes breezes
Who cares what it does
Since you broke my heart
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun
Pa Pa Pa Pa
Not everyone
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun
Who loves the rain
Who cares that it makes flowers
Who cares that it makes showers
Since you broke my heart
Who loves the sun
Who cares that it is shining
Who cares what it does
Since you broke my heart
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun
Pa Pa Pa Pa
Not everyone
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun
Sun
Sun
Sun
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun
Pa Pa Pa Pa
Not everyone
Pa Pa Pa Pa
Who loves the sun
(Velvet Underground)
E para os acasos: I got you under my skin.
[15 de maio de 2006]
- Eu tentei, juro! - Gritou desesperadamente a garota pela janela do quarto. Só ouviram as paredes, os muros, os gatos pardos e as janelas que abrigavam a visinhança adormecida.
Murmurou depois: - Eu juro, eu juro, eu juuur...
E pensou: Juro que tentei deixar pra nunca mais...
Quilômetros menos quilômetros nas noites próximas em letras... Amarrada terrivelmente num castigo prometeu. Fez promessa para o santo das causas impossíveis e acendeu uma vela durante a terceira parte de sua saga. A vela apagou, seu desejo não foi atendido e ela ficou a olhar as constelações pela janela do quarto, imaginando como seria o céu lá!...
[15 de maio de 2006]
testamento
deixo os meus passos cor-de-rosas
cascos quase tartaruga...
deixo minhas mãos vermelhas
rugosas de juventude
deixo rasgados meus desenhos
deixo a dúvida e a voz do outro lado da mudez.
deixo nada mais
pois a inexistência é o que me resta
deixo cores imperfeitas que não são eixos
e do divã esquecido levanto
e do vidro polido desvio
até parar do outro lado,
qualquer que seja...
[10 de fevereiro de 2006]
Dói por dentro o que vem fora
Dói terrivelmente a partida de cada parte rara da casa e do peito
Fica cá, comigo, entre as unhas um espaçamento vago de canto interminado
Fica ali, longe a voz seqüenciada da rotina que se quebra
Esteve pensando nas janelas e nas quinas da sala de jantar
mesa e cadeiras de vento e velas sem fogos e luzes
A casa ficou vazia do dia para a noite marcados
A casa ficou, sozinha
[ 18 de dezembro de 2005]
Nuvens escuras.
Elas estavam todas ali com seus sorrisos largos e copos e garrafas diferentes - a irmã, mais querida entre todos os mais queridos - despejada sobre o sofá azul tão familiar destilava palavras de açúcar a cada novo traço de magia que seus dedos longos de fada podiam desenhar sobre o ar seco da noite.
Antes dos dez próximos minutos o tempo havia parado em uma dimensão de felicidade, até que o telefone insone tocasse e destoasse a noite, não haveria mais festa... Saíram, o aviador e suas cinco mulheres, companhias de uma noite. Entraram apertados no carro azul e rodaram até o bar Jubiabá, sentaram em uma mesa, cortesmente oferecida pelo garçom amigo-simpatia que tirava as cadeiras, já guardadas, de seu sono e trazia cervejas estupidamente geladas aos novos amigos que brindavam as histórias e conflitos entre homens e mulheres. Gritaria, gritaria, descententes de povos com fogo nas artérias e línguas de aço, batiam-se os dentes e as línguas em uma discussão inflamada que chamava a atenção de todos que ainda permaneciam no bar.
Confusão para deixar cada troco com seu dono, o álcool fazia o pensamento rápido e lento, de acordo com o assunto a ser tratado e memórias à parte, naquela hora, mais segundo, a menina que tivera o ombro tocado não tinha mais pudores, não tinha mais cálculos a fazer na mente que era tomada por alegria em fúria. Trocariam o dinheiro no Valentino.
A noite acabava.
Last night I told a stranger all about you
They smiled patiently with disbelief
I always knew you would succeed no matter what you tried
And I know you did it all in spite of me
Still I'm proud to have know you for the short time that I did
Glad to have been a step up on your way
Proud to be part of your illustrious career
And I know you did it all in spite of me
In spite of me
Late last night I saw you in my living room
You seemed so close but yet so cold
For a long time I thought that you'd be coming back to me
Those kind of thoughts can be so cruel
So cruel And I know you did it all in spite of me
In spite of me
Morphine
[21 de novembro de 2005]
It's you that I adore
You will always be my heart
You'll be a mother to my child, and a child to my heart
We must never be apart
We must never be apart
Lovely girl, you're the murder in my world
Without you there aren't reasons left to fight
And I'll pull your crooked teeth
You'll be perfect just like me
You'll be a lover in my bed, and a gun to my head
We must never be apart
We must never be apart
Lovely girl, you're the murder in my world
Dressing coffings for the souls I've left to die
Drinking mercury to the mystery
Of all that you should ever seek to find... in time
In you I see dirty
In you I count stars
In you I feel so pretty
In you I taste god
In you I feel so hungry
In you I crash cars
We must never be apart
Drinking mercury to the mystery
Of all that you should ever seek to find
Lovely girl, you're the murder in my world
Dressing coffings for the souls I've left behind... in time
We must never be apart
It's you that I adore
You will always be my heart
And I'll pull your crooked teeth
You'll be perfect just like me
In you I feel so dirty
In you I crash cars
In you I feel so pretty
In you I taste god
Smashing Pumpkins - Ava Adore
[03 de novembro de 2005]
Ea abriu a porta e deu um sorriso de estrondo. Não podia acreditar no homem de barba e cabelos enrolados que batia mais uma vez e depois de tanto tempo à sua porta. Fez as honras da casa, tirou o maço de tulipas e o pacote que ele trazia nos braços, o sobre-tudo pesado – inverno rigoroso da Espanha, por incrível que parecesse – Deu um sorriso. E outro e mais quantos teve vontade, e tantos vieram aos lábios que não pode contar, não pôde porque fazia parte de seus músculos aqueles espasmos de felicidade, de contemplação.
Mais uma vez, porta adentro.
Sentaram-se no sofá de tecido branco. Parcamente colocado contra a parede vermelha. Na sala bem iluminada trocaram sorrisos e sorrisos e olhares e olhares. As tulipas no vaso sobre o aparador a completar o ar faceiro que tomava conta do ambiente. E aqueles sorrisos que se seguiam e agora pareciam de plástico e resina. Estava feliz, feliz, feliz.
Mais uma vez. Sentados. Lado a lado. Os tênis all star. A calça jeans surrada. Camiseta de uma só cor. Sorriso. Sentados. Pernas cruzadas sobre o sofá, a almofada no colo, gestos, as mãos sobre a almofada. Calça de linho cru, bata branca, um colar de muitos brilhos e cordas e couros e pedras. Confundindo o olhar que parava nos detalhes das unhas das mãos em descuidado lascar nos cantos. O esmalte claro. Nos pés nus sobre o tecido fino e fofo.
Conversaram. Era cinco da tarde. Ela foi à cozinha, retirou uma tábua, uma faca do armário. Escolheu cebolas, alhos, tomates, temperos: manjericão, pimenta, sal. Sempre salgava demais. Lavou-os, cortou, chorou quando delicadamente fez partir as entranhas da cebola alva. Ele a tocou nas orelhas, a mão de um lado e a língua de outro, ela esquivou-se erguendo como reflexo a ponta da faca. Sorriu mais uma vez.
Ele escolheu os pratos, talheres e copos enquanto o molho simples ficava pronto. Ralou o queijo e cuidou dos guardanapos de linho, da música antiga que tocava.
Ela provou a massa, dama e vagabundo. Ela provou com a ponta da língua a acidez do sugo, colocou o toco de queijo na boca dele e mais e mais e mais e pela última vez sorriu.
Ele ficara com a boca cheia daquele apanhado de gosto bucólico e ela levou a salada fresca cheia de flores à mesa. Perfeitamente. Sentaram para comer, sentaram para celebrar o reencontro de anos. O reencontro de vidas e palavras.
Ela partiu um pedaço de pão que ele trouxera da Itália. Comeram e não falaram, como se fizessem parte de uma família regrada pelo patriarca autoritário, nenhum som além dos talheres batendo contra as louças. A mastigação competente dos dentes brancos de ambos. Ou nem tão brancos dela. Anos de tabaco que ele tanto condenava. Um brinde de silêncio, elegantemente os copos distantes e os pés por debaixo da mesa. Ele recuou a perna quando ela tentou tocá-lo. Ela sorriu, agora pela falta de graça, pelo constrangimento, e não pôde compreender o porquê, por que estaria ele ali, frente a frente, o corpo um pouco reclinado sobre o prato que se eximia da mesa. Foi sempre assim, quase dez anos e nada mudara.
Ela acenava, ele virava as costas e corria, mesmo que quisesse ficar ali parado, ele corria e corria sem nunca olhar, sem nunca voltar a cabeça. Mas seus olhos, ah seus olhos sempre se enchiam de lágrimas ao pensar no que ficava para trás.
Voltou do devaneio, ele erguera um pouco o copo de vinho e ela retribuira o brinde, formalidades à parte sempre ficavam um pouco quietos, um pouco sem palavras. Antigamente ele apenas tocava os cabelos curtos dela e no meio da noite a envolvia vagarosamente, a envolvia e beijava de leve qualquer parte próxima dos lábios... os ombros, ela se mexia como um gato que procura aconchego e acariciava as mãos dele, acariciava com o rosto o braço quase menino e tão mais velho, tão mais vivido que os dela.
Os lençóis cor-de-rosa, os lençóis azuis, alternados na pobreza singela dos anos de faculdade, agora memória regozijada e longe daquela mesa e daquelas tulipas na sala. Num tempo em que as salas de jantar se faziam em puffes e não importava o vaso de gérbera na área da casa vasta, naquela época fizeram valer dias esparsos em que compartilhavam algumas horas e mais algumas garrafas de cachaça ou vodka.
Os dois perdidos nas tulipas como se opiaceamente um flashback acometesse ambos, deixaram os copos sobre a mesa, voltaram para a sala e dois dedos de prosa: a banda dos tempos das festas de república, o que foi feito dos velhos amigos, o que foi feito deles...
Ela abriu a boca para dizer algo e ele a olhou como fazia antes, foi ao seu encontro, beijou. O mesmo gosto, os mesmos movimentos em sincronia. Ambos provaram inúmeras bocas durante os anos de ausência, mas nenhuma suprira aqueles vácuos que nunca tinham lugar no beijo deles. Ficaram assim por alguns minutos, as bocas unidas e os corpos ainda afastados.
Não sabiam mais nada sobre a crise mundial, pouco importava o valor do Euro, pouco importava todas as desavenças e erros que haviam cometido. Cobertos por uma vontade de se colarem, afoitos por misturar odores e fluidos não viram a tarde partir, o sol se por. Ela o trouxe para o sofá maior, fez com que o corpo pesasse sobre o corpo, deixou as mãos dele invadir os esconderijos que as roupas largas poupavam, deixou que mais uma vez o sorriso povoasse seu rosto. Abraçava-o com toda a querência doce e proibida dos amantes mais shakespearianos, mordia seus lábios como as devassas mais calientes de Bukowisk.
Passou a mão por debaixo da blusa dele e desabotoou o cinto, as calças jeans, as puxou vigorosamente para desobstruir o caminho, alcançou o membro ereto ao tempo em que ouvia o gemido surdo. Ele a puxou pelos cabelos, beijou, tirou a blusa e lavrou os seios como a terra mais fértil.
Cabelos puxados mais uma vez, costas a mostra, nuca, mordidas que retiravam torrões de pele e corpo e alma. Entregaram-se à noite hispânica com fervor de pimentas.
Na manhã, os corpos largados no langor do sofá maculado, ele deixou-lhes um beijo na face, roubou uma tulipa com cheiro doce de chocolate, derrubou outra. O final das histórias nunca muda.
Ela acordou, levantou. Recolheu a louça, lavou cada talher mais de uma vez, poliu a prata, secou os copos até ouvir o barulho do linho contra o cristal, secou e guardou a louça, bateu a toalha no tanque. Tomou um copo de água e mais dois goles, deixou o copo com o resto sobre a pia.
Caminhou até o quarto, escolheu uma roupa, a que mais gostava, tirou as peças que havia recolocado, entrou no banho, demorou mais que o de costume, não ligou a banheira ou gastou os caros sais de banho. Saiu, secou-se passou um creme sobre a pele branca, perfumou-se, penteou os cabelos. Colou a roupa e vestiu os pés com botas de camurça clara.
Tirou um livro da estante:
“I know the bottom, she says. I know it with my great tap root;
It is what you fear.
I do not fear it: I have been there.
Is it the sea you hear in me,
Its dissatisfactions?
Or the voice of nothing, that was you madness?
Love is a shadow.
How you lie and cry after it.
Listen: these are its hooves: it has gone off, like a horse.
All night I shall gallup thus, impetuously,
Till your head is a stone, your pillow a little turf,
Echoing, echoing.
Clouds pass and disperse.
Are those the faces of love, those pale irretrievables?
Is it for such I agitate my heart?
I am incapable of more knowledge.
What is this, this face
So murderous in its strangle of branches?—
Its snaky acids kiss.
t petrifies the will. These are the isolate, slow faults
That kill, that kill, that kill.”
Não pôde sair. Os pães esfriavam nos cestos da padaria.
Ernest Hemingway