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Ele abria seu coração aos poucos, esfinge que era, falava meio por ritmos, meio por gestos. Ficava esperando a hora passar quieto, as mãos metidas nos bolsos da jaqueta marrom - ou jeans - que insistia em usar, ou na maior parte das vezes, a segurar um copo pequeno com uma bebida destilada dentro. Ficava ali dando sorrisos, e ali poderia ser qualquer lugar, a frente da janela dentro da cozinha, os balcões sujos dos bares que buscava sem imaginação ou mesmo algum feixe de lençóis perfumados por cheiros adocicados e inebriantes. Seu coração falava sim, aos poucos, aos poucos mesmo, dizia sem pressa entre um sorriso e outro que as coincidências lhe diziam muito. Dizia que a calça dela era bonita e que não poderia amá-la vestindo meias brancas, listradas, quais quer que fossem. Falava marcadamente de cada um que conhecia e fazia parte de sua existência esplêndida, cheia de uma luz de penumbra e uma voz de crônica. Gostava das noites e mais ainda dos que nela habitavam, via nos andantes noturnos o que a felicidade representava, o que a tristeza, o que a vida. Numa das vezes que tentou abrir a boca, foi mais feliz ao usar as mãos, sempre quentes, para dizer que dela gostava, que se preocupava... Ou seria uma impressão provável... Nos diz-que-me-disse da vida, diante de seus olhos menos brilhantes, também diz que disse a alguém que aquela história era sem pé nem cabeça, isso disse com a boca, sem sorrisos tortos e sem olhares diretos. Não sabe ainda se foi sincero, porque diria, sempre e mais tantas vezes o contrário: a cabeça da história e o pé eram parte de uma trama que flutuava num mundo à parte, mundo que voltava periódico, geralmente no mês casadoiro de maio.
Ele abria seu coração aos poucos, esfinge que era, falava meio por ritmos, meio por gestos. Ficava esperando a hora passar quieto, as mãos metidas nos bolsos da jaqueta marrom - ou jeans - que insistia em usar, ou na maior parte das vezes, a segurar um copo pequeno com uma bebida destilada dentro. Ficava ali dando sorrisos, e ali poderia ser qualquer lugar, a frente da janela dentro da cozinha, os balcões sujos dos bares que buscava sem imaginação ou mesmo algum feixe de lençóis perfumados por cheiros adocicados e inebriantes. Seu coração falava sim, aos poucos, aos poucos mesmo, dizia sem pressa entre um sorriso e outro que as coincidências lhe diziam muito. Dizia que a calça dela era bonita e que não poderia amá-la vestindo meias brancas, listradas, quais quer que fossem. Falava marcadamente de cada um que conhecia e fazia parte de sua existência esplêndida, cheia de uma luz de penumbra e uma voz de crônica. Gostava das noites e mais ainda dos que nela habitavam, via nos andantes noturnos o que a felicidade representava, o que a tristeza, o que a vida. Numa das vezes que tentou abrir a boca, foi mais feliz ao usar as mãos, sempre quentes, para dizer que dela gostava, que se preocupava... Ou seria uma impressão provável... Nos diz-que-me-disse da vida, diante de seus olhos menos brilhantes, também diz que disse a alguém que aquela história era sem pé nem cabeça, isso disse com a boca, sem sorrisos tortos e sem olhares diretos. Não sabe ainda se foi sincero, porque diria, sempre e mais tantas vezes o contrário: a cabeça da história e o pé eram parte de uma trama que flutuava num mundo à parte, mundo que voltava periódico, geralmente no mês casadoiro de maio.
Era assim, quase sempre e até longe. Olhava a vida com um ar de desesperança que se tornava vida, olhava a vida com um ar de quem passou por ela muitas e muitas vezes. Para os outros, mais próximos era por vezes um louco que consumia muito álcool e algo mais em determinadas ocasiões, soltava frases insólitas, soltava comentários ácidos, soltava um bafo quente de cachaça tão naturalmente brasileira. Para os não próximos era pálido, esguio, meio languido quem sabe, ou a descrição seria a de um poltrão, quem sabe um excêntrico desventurado e cheio de pouco senso de humor e pouca frase na ponta da língua, língua essa que se metia na borda do copo ou dentro da boca (sua?!). Mas seria assim... Ficava entre a pergunta e a constatação distante. Seria o que pouquíssimos viam, seria a caricatura de sua próxima face. Estava naqueles dias distante dos olhos da moça que passava por ele no balcão do bar, estava distante do bar, aquele de sempre, pelo menos, estava ouvindo línguas diferentes e criadas em parte por sua embriagues verde. Seu cheiro, porém, não deixava os antigos lugares e as antigas paixões, os olhares que ele dirigia via as mesmas coisas em coisas diferentes e os cheiros eram cheiros de dar água na boca, dar água nos joelhos, nas mãos, nos pés, nos ouvidos e ele gostava imensamente daquelas sensações absurdas de sonho que o perseguiam desde a infância e agora eram mais fortes por alguns fatores externos. - Eu sempre me sinto só e trago restos comigo, restos daqueles para quem entrego pedaços de minha própria carne. Eu sempre digo sempre, porque em todas as horas sinto falta de algo que não compreendo, são faltas diferentes vertidas numa mesma imagem que vem bestamente entre frases que não combinam. Nessas e noutras noites, manhãs ou tardes, todas madrugadas os sonhos perturbam minha mente já não tão cheia de calmaria. Vejo rostos e sinto corpos de um passado que não pude ou quis viver em plenitude, sou um homem ao meio, metade felizmente encontrado nas amarguras do espelho, metade a perder-se ainda.
Um dia, porém, disse com a voz forte e doce, que tinha e que quase nunca se ouvia, que ela o conhecia mais que tantos, talvez o conhecesse pleno. Ela fez cara de que não entendera, fez uma cara “ta me gozando”, mas ficou com a frase na cabeça por anos. Ele não diria isso de graça, posto que cobrava muito caro por suas intimidades, pagava-se com moeda corrente de desconsolo ou solidão posterior e como troco recebia-se a certeza de um reencontro gauche. Matemática, odiada, nenhum ponto era feito sem medidas as conseqüências, verdade sem cerne, mas parecia que matemáticas e coincidências se seguiam periódicas na vida dele, quem sabe dela. Períodos de tempo, das palavras, das ações se repetindo e repetindo. Numa dessas repetições friamente calculadas por algo além dele, as palavras saltaram de sua boca em direção àquela menina com quem cruzava no bar. É, elas não saíram assim por acaso, ou saíram? Mas o caso é que estavam num lugar que não o bar. Ele a olhou nos olhos o mais fundo que podia, lançou as palavras no ar e elas pairaram com o gosto do beijo que se seguiu. - Ela sabia muito mais sobre mim do que eu gostaria, ela estava mais perto da distância imposta pela fatia de película fotgráfica que eu levava no bolso, já gasta e com uma imagem quase indecifrável. A película trazia a verdade de meus dias. O eu, o eu infante que ainda estava nos pêlos do meu braço pouco forte. Ela, sei eu, sentiu o sabor do que eu sou de verdade e por isso não a tiro de meu caminho como faço sempre. Ela volta, mês de maio, não?! Mês de maio, às vezes, mas volta quando eu quase esqueço, volta quando eu ainda dela faço precisão e não daquela matemática de que fujo e sou prisioneiro. Ela vem e senta-se na mesa da casa em que habito sozinho e feliz, senta, cruza as pernas fortes que me enlaçam com um movimento tênue e não me alcançam, sorri e olha, olha, olha, olha por dentro, mesmo não sendo ela é ela quem me vê. Simples assim, como o roteiro que não posso escrever ou o sonho que aparece agora, depois de tantos anos de trégua.
[20 de maio de 2006]