Me absorva.
Me lamba.
Me sorva.
Me devore.
Me coma.
Me deguste.
Me beba.
Me fume.
Me de-gus-te com gosto.
sábado, 18 de dezembro de 2010
Era a última semana de 1983 e a moça projetava seu futuro, o próximo 2010.
Ficou sozinha aqueles dias e rumninou, ruminou e ruminou as lembranças e as vontades. Tentou explicar ao tempo que ele passava depressa demais, mas ele não a ouviu, ávido em alimentar-se de mais sonhos desfeitos, mentiras doces, noites de bebedeira.
Objetivo não atingido, tentou ela engolir e deglutir as memórias e os desejos. Engoliu-os com café, cerveja, macarrão, chocolates, quilos de queijo, algumas mangas. Engordou, dizem os ponteiros da balança, ao menos cinco quilos naqueles dias. mas no coração, a garota sentia o peso de uma arroba, mais, quem sabe.
Nas tábuas corridas do assoalho, as lágrimas corriam e escorriam por entre os vão mal calafetados. A alma estava pesada como a muito não estava. Qualquer estímulo fazia doer, qualquer amor. Não sobrou muito depois da devassa, não sobrou.
Era a última semana de 2010, tentando lembrar de 1983.
Ficou sozinha aqueles dias e rumninou, ruminou e ruminou as lembranças e as vontades. Tentou explicar ao tempo que ele passava depressa demais, mas ele não a ouviu, ávido em alimentar-se de mais sonhos desfeitos, mentiras doces, noites de bebedeira.
Objetivo não atingido, tentou ela engolir e deglutir as memórias e os desejos. Engoliu-os com café, cerveja, macarrão, chocolates, quilos de queijo, algumas mangas. Engordou, dizem os ponteiros da balança, ao menos cinco quilos naqueles dias. mas no coração, a garota sentia o peso de uma arroba, mais, quem sabe.
Nas tábuas corridas do assoalho, as lágrimas corriam e escorriam por entre os vão mal calafetados. A alma estava pesada como a muito não estava. Qualquer estímulo fazia doer, qualquer amor. Não sobrou muito depois da devassa, não sobrou.
Era a última semana de 2010, tentando lembrar de 1983.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

[O texto que Mariana gostaria que tivessem escrito pra ela…]
A conheci numa tarde nublada em São Paulo.
Eu não soube sorrir quando a vi e ela não pode me abraçar com fluidez no instante de estreia. Entramos no museu para ver as languidezes das fotografias de Wim Wenders e as solidões em cada granulação das ampliações.
Ela andava distante, mais rápido que eu. Falava pra dentro, estava nervosa.
Não podia ler em seus olhos o que sentia, nem a forma como gostaria de ter as maçãs dos rosto seguras por minhas mãos. Não a ouvia bem. Sentia nada demais na primeira hora e meia, mas a avistava refletida no vidro das imagens como alguém que faz parte de um mundo hopperiano e, então, cavava uma saída nas janelas amplas do museu. Meu próprio quadro.
Ela é piegas e visivelmente temia parecer burra encadeando conceitos e impressões que despejava num tom monocórdio. Ela é diferente e tão igual a mim: Ouve sons que eu não gosto e vai a lugares que odeio. Faz fotografias e gosta de cachorros, mas não sabe sorrir mostrando os dentes como eu.
Usa unhas vermelhas, óculos de aros grossos – os quais provei -, os cabelos pra trás presos com uma tiara. Quando nos conhecemos ela trazia o rosto maquiado, mas não o batom que tanto gosto. E agora, dela – que pouco sei - já não posso esquecer ou me livrar, desdenhar sem querer.
Ela se tornou minha segunda “mariana”. Ocupou o posto da primeira que tinha cabelos descoloridos e lindo rosto, pouco mais de vinte anos. Ela é minha segunda e, ao contrario da primeira, não partiu meu coração, meus ossos, meus olhos. Minha segunda tentava construir algo, mesmo que fosse uma canção no meio da noite, da qual apropriava-se assim, de repente, por pouco mais de um minuto.
Ela, a minha “segunda”, é morena e me contou que já foi a segunda mariana de alguém e disse que sou seu primeiro-segundo. Primeiro “joão”, segundo “henrique”, completando que não queria o segundo pela segunda vez.
Ela, a “segunda” que agora já quero não tem porte de modelo, panca de artista, carro de bacana. Mas há um quê de melancolia em seus olhos, daquela melancolia que parece com saudades e resvala a tristeza. Daquela melancolia da qual não posso viver sem. Daquela melancolia pouco sóbria nas altas horas dos teatros.
A minha “mariana” se faz poeta em pequenos passos e me completa erroneamente, deixando pra trás algo que não me cabe. Sendo segunda se fez inédita e deixou um sentimento sorrateiro e constante que me enche como copo d’água, lenta e docemente. É igual a qualquer outra, desigual em tudo.
Ela me teme e se resguarda em postura fraternal e da sua boca pequena de lábio escondido eu tento ouvi-la, desejando com dificuldade as frases e sempre esperando pela próxima palavra em voz de barítono: Uma declaração de amor.
Nela é que me espelho nas manhãs sem quarto e longe, numa espécie de sussurro brando e espero que ela olhe para o céu paulistano se perguntando onde estou.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Meu coração é como um copo. Ele é clichê e completamente apto a estar "meio cheio ou meio vazio". O transbordamento ou a secura são determinados por gestos, fotos, palavras, pensamentos que desencadeiam tristezas, amores, arrebatamentos. Às vezes, um simples "alô".
De algumas pessoas gosto tanto, que quando nelas penso o corpo todo parece se encher como um copo que engole toda água ou cerveja. Meu corpo copo de cerveja recebe a felicidade desde os pés, mas é a partir da cintura que sinto o conteúdo mais espesso e borbulhante de gracejos internos.
Bastam algumas palavras escritas de longe, a esperança em reencontrar tanta bem-querência, que sinto na superfície superior dos braços um arrepio e no peito o limite transbordante.
Na tarde de hoje, dia de sol e dor nos pés, recebi meia dúzia de dizeres. Era amigo distante. O transbordamento foi tamanho que o limite da superfície, como em um copo que recebe a gota última e já tem convexa a linha d'água, rompeu. Pelos olhos, cada gota a mais de amor insistiu em se espalhar.
De algumas pessoas gosto tanto, que quando nelas penso o corpo todo parece se encher como um copo que engole toda água ou cerveja. Meu corpo copo de cerveja recebe a felicidade desde os pés, mas é a partir da cintura que sinto o conteúdo mais espesso e borbulhante de gracejos internos.
Bastam algumas palavras escritas de longe, a esperança em reencontrar tanta bem-querência, que sinto na superfície superior dos braços um arrepio e no peito o limite transbordante.
Na tarde de hoje, dia de sol e dor nos pés, recebi meia dúzia de dizeres. Era amigo distante. O transbordamento foi tamanho que o limite da superfície, como em um copo que recebe a gota última e já tem convexa a linha d'água, rompeu. Pelos olhos, cada gota a mais de amor insistiu em se espalhar.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Nicolau está deitado no sofá e tem os olhos baixos. Acabo de gritar com ele. Ele, que só queria dar uma volta em frente ao prédio. Nicolau está deitado no sofá. Encostado em mim, ressona cansado da vida de cão tão catita que leva. Dorme tranquilo. Há pouco pedi que ele ficasse quieto, ele não quis. Eu "que só queria um pouco de silêncio pra colocar as ideias em ordem". Era mentira. Mais uma vez.
Não sei mais dizer não. Não sei me conformar com os dias ou talvez me conforme demais. Não sei mais como é ser a mim. Quando, enfim, o cão dorme, não tenho forças para escrever, vontade de ler, condições para pensar. Vai sempre haver uma desculpa. O cão. A louça na pia. O mau-humor do dia.
O coração vai dolorido sendo jogado de uma falta de expectativa a uma realidade logo fugidia e, depois, uma decepção desesperada enquanto eu nutro a obsessão "do que tem pra hoje". Do jornalista adicto - o sorriso mais lindo desse mundo. Do cineasta que calça sapatos femininos. Do médico afobado e que também parece desculpar-se a todo tempo. Para o ator com sorriso de palhaço. Para o melhor amigo que, às vezes, parece apenas conhecido. Para o colega de trabalho jogador compulsivo ou o outro tão problemático quanto eu.
O coração se afeta. Apaixona-se e desapaixona-se terrivelmente. Sente-se traído, mas sequer quis de verdade. A relação com qualquer coisa anda assim: O desejo do passado. O amor alimentado à distância por conveniência e unipartidarismo. A certeza do "dar certo" mais tarde: "É aos trinta, talvez 40, hoje em dia"...
No silêncio da piscina a certeza de um instante de imutabilidade. Comodidade. Onde o fracasso não ultrapassa a borda e, se o fizer, vai levar apenas algumas gotas de vantagem. Onde a decepção de si para consigo - projetada no outro - não chega, até que na raia se multipliquem os nadadores.
"Quero ir embora", penso sempre. Mas nunca soube dizer pra onde.
Não sei mais dizer não. Não sei me conformar com os dias ou talvez me conforme demais. Não sei mais como é ser a mim. Quando, enfim, o cão dorme, não tenho forças para escrever, vontade de ler, condições para pensar. Vai sempre haver uma desculpa. O cão. A louça na pia. O mau-humor do dia.
O coração vai dolorido sendo jogado de uma falta de expectativa a uma realidade logo fugidia e, depois, uma decepção desesperada enquanto eu nutro a obsessão "do que tem pra hoje". Do jornalista adicto - o sorriso mais lindo desse mundo. Do cineasta que calça sapatos femininos. Do médico afobado e que também parece desculpar-se a todo tempo. Para o ator com sorriso de palhaço. Para o melhor amigo que, às vezes, parece apenas conhecido. Para o colega de trabalho jogador compulsivo ou o outro tão problemático quanto eu.
O coração se afeta. Apaixona-se e desapaixona-se terrivelmente. Sente-se traído, mas sequer quis de verdade. A relação com qualquer coisa anda assim: O desejo do passado. O amor alimentado à distância por conveniência e unipartidarismo. A certeza do "dar certo" mais tarde: "É aos trinta, talvez 40, hoje em dia"...
No silêncio da piscina a certeza de um instante de imutabilidade. Comodidade. Onde o fracasso não ultrapassa a borda e, se o fizer, vai levar apenas algumas gotas de vantagem. Onde a decepção de si para consigo - projetada no outro - não chega, até que na raia se multipliquem os nadadores.
"Quero ir embora", penso sempre. Mas nunca soube dizer pra onde.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
36. 27.
36.27. Já tenho dois números para apostar na loteria. Problema é que preciso de mais quatro. Ambos poderiam se somar, criar mais um ou dois, mas não o fazem. Poderiam subtratir o absurdo número "18 mil", mesmo que pareça impossível tal produto. Dessas 18 mil distâncias que os separam em multiplos de (mais) mil há dois anos quase completos e mais 365 multiplicado por 3, noves fora, sobrou apenas UM fim de semana num passado já distante. (Talvez única memória verdadeira.) Matemática complicada, é preciso que se diga, que, como das outras vezes, tem motivação coronária e nem sempre pode ser decifrada. Necessita manual, sei eu.
13.07. O dia do e-mail a ser enviado, como em todos os últimos anos (não sei quantos). Ontem, diferente dos demais 13.07, a amiga disse, não lembro com quais palavras: É preciso que acabe.
O coração murchou, não porque nele algo houvesse. Oito fluidos anos. Errei, há dois anos passados, a mesma divisão. Talvez erre novamente agora o quociente das inteiras paixões.
Doeu-me pensar em assassiná-lo, assim à distância, ou somente esquecê-lo, assim na ausência. A verdade é que dói perder a muleta que talvez tenha se tornado. Dói, qualquer que seja a escolha...
Apagarei os escritos, todos. Os e-mails tão escassos. As imagens roubadas de memórias alheias. O telefone lá de longe. Mas como ficam as memórias? Mesmo que já não as ouça, não as visite, não mais leia na mente que se empoeira o nada de lembranças com afinco cultivadas.
Saber que ele irá, a despeito de toda fantasia e ilusão sempre nutridas e nutridas, partir é ter os dedos frios além do ar. E a dor me assusta: "Vai doer", penso e penso. "Vai doer nunca mais escrever", é o que repito, porque é só nas letras que o possuo, bem pouco. Um pouco.
Ele foi enredo de história, bem escrita porque fictícia. Acabou a imaginação. Enfim. Acabou o aprisionamento de alguém que nunca tive. Acabou.
36.27. Já tenho dois números para apostar na loteria. Problema é que preciso de mais quatro. Ambos poderiam se somar, criar mais um ou dois, mas não o fazem. Poderiam subtratir o absurdo número "18 mil", mesmo que pareça impossível tal produto. Dessas 18 mil distâncias que os separam em multiplos de (mais) mil há dois anos quase completos e mais 365 multiplicado por 3, noves fora, sobrou apenas UM fim de semana num passado já distante. (Talvez única memória verdadeira.) Matemática complicada, é preciso que se diga, que, como das outras vezes, tem motivação coronária e nem sempre pode ser decifrada. Necessita manual, sei eu.
13.07. O dia do e-mail a ser enviado, como em todos os últimos anos (não sei quantos). Ontem, diferente dos demais 13.07, a amiga disse, não lembro com quais palavras: É preciso que acabe.
O coração murchou, não porque nele algo houvesse. Oito fluidos anos. Errei, há dois anos passados, a mesma divisão. Talvez erre novamente agora o quociente das inteiras paixões.
Doeu-me pensar em assassiná-lo, assim à distância, ou somente esquecê-lo, assim na ausência. A verdade é que dói perder a muleta que talvez tenha se tornado. Dói, qualquer que seja a escolha...
Apagarei os escritos, todos. Os e-mails tão escassos. As imagens roubadas de memórias alheias. O telefone lá de longe. Mas como ficam as memórias? Mesmo que já não as ouça, não as visite, não mais leia na mente que se empoeira o nada de lembranças com afinco cultivadas.
Saber que ele irá, a despeito de toda fantasia e ilusão sempre nutridas e nutridas, partir é ter os dedos frios além do ar. E a dor me assusta: "Vai doer", penso e penso. "Vai doer nunca mais escrever", é o que repito, porque é só nas letras que o possuo, bem pouco. Um pouco.
Ele foi enredo de história, bem escrita porque fictícia. Acabou a imaginação. Enfim. Acabou o aprisionamento de alguém que nunca tive. Acabou.
segunda-feira, 1 de março de 2010
fazia cerca de um ano. não pensava, não sofria, não sonhava. havia quase esquecido - ao menos de uma certa forma - o amor de outrora. é longe, oras. impossível acontecer. coisa do "já se foi".
eu o amei. fui "obcecada". nunca houve um fim ou um esquecimento ou esperança concreta. nunca houve resposta definitiva. aceitação incondicional. houve espasmos. houve acasos. pequenas concessões. pequenos sorrisos. algumas noites. poucos dias.
ele voltou. não fisicamente, mas mais uma vez em momento de caos. meus olhos estavam tristes e o coração havia poucas semanas se apertava e apertava.
ele voltou. era ao que se agarrar.
hoje, durante a viagem corriqueira, o olhar pairava pelas paisagens de todo dia sem que a atenção se voltasse aos carros, aos galhos, ao verde que se fazia negro ou às luzes que luziam embaciadas pela neblina. num estalo acabou-se a letargia. "o que faço se ele se casar?"
meu coração doeu. acabaria-se o refúgio. acabaria-se a esperança pálida. mataria-se o amor ou o amor assassinaria a mim.
eu o amei. fui "obcecada". nunca houve um fim ou um esquecimento ou esperança concreta. nunca houve resposta definitiva. aceitação incondicional. houve espasmos. houve acasos. pequenas concessões. pequenos sorrisos. algumas noites. poucos dias.
ele voltou. não fisicamente, mas mais uma vez em momento de caos. meus olhos estavam tristes e o coração havia poucas semanas se apertava e apertava.
ele voltou. era ao que se agarrar.
hoje, durante a viagem corriqueira, o olhar pairava pelas paisagens de todo dia sem que a atenção se voltasse aos carros, aos galhos, ao verde que se fazia negro ou às luzes que luziam embaciadas pela neblina. num estalo acabou-se a letargia. "o que faço se ele se casar?"
meu coração doeu. acabaria-se o refúgio. acabaria-se a esperança pálida. mataria-se o amor ou o amor assassinaria a mim.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Na sacada, qualquer hora do dia. Acende um cigarro, olha São Paulo correr. Fuma porque é a única ligação que ainda mantém. Numa bruma completa, misturada com todos os outros gás carbônico da metrópole. Em algum lugar um traço do pulmão dela haveria de topar com o dele. Num sopro, o coração de um poderia sentir o de outro. Entre os gases, levemente, uma pequena possibilidade.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Ela esperava o namorado e estava exausta. Na casa: mãe que já era avó, pai que já era avô. O amor veio acompanhado de maus elementos. Eram cinco, esperavam uma oportunidade. Entraram todos e fizeram quase nenhum mal físico, quase todo o mal à alma. Saíram levando, corre o boato, mais de um milhão de cruzeiros - mas vá lá, como diz bobagem essa gente! Deixaram os corações mais tristes, o medo mais presente. Vieram pra lembrar como somos frágeis, mas nas bocas alheias só a repetição da história em seus detalhes, quase sempre, inventados.
_________________
Sempre ouvi: "Como D. era bonita!". Quase a neta mais velha, filha do tio controverso. Nunca a conheci bem, lembro dela em uma visita, na cozinha da casa onde já não moro, os mosquitos que cobriam a antena do rádio. Poucas vezes, eu tão criança, pudemos trocar abraços e alguma doçura. Com os anos foi-se o cabelo enrolado, os olhos faiscantes, o viço, um certo amor. Ficaram os maços de cigarro, os telefonemas sofridos.
Na manhã de segunda, pela primeira vez foi dito: "Foi-se a nossa menina"- a voz triste, trêmula e logo: "Ela era tão linda". Um soluço, uma impossibilidade. A quase mais velha, mais linda, foi-se. Nem pude saber ao certo quem era nos parcos abraços. Como vivia, na distância próxima. Mas, nem por isso, o coração ficou cheio. Correu a lágrima como a tristeza numa enxurrada morna, lembrando, mais uma vez, que somos frágeis.
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Sempre ouvi: "Como D. era bonita!". Quase a neta mais velha, filha do tio controverso. Nunca a conheci bem, lembro dela em uma visita, na cozinha da casa onde já não moro, os mosquitos que cobriam a antena do rádio. Poucas vezes, eu tão criança, pudemos trocar abraços e alguma doçura. Com os anos foi-se o cabelo enrolado, os olhos faiscantes, o viço, um certo amor. Ficaram os maços de cigarro, os telefonemas sofridos.
Na manhã de segunda, pela primeira vez foi dito: "Foi-se a nossa menina"- a voz triste, trêmula e logo: "Ela era tão linda". Um soluço, uma impossibilidade. A quase mais velha, mais linda, foi-se. Nem pude saber ao certo quem era nos parcos abraços. Como vivia, na distância próxima. Mas, nem por isso, o coração ficou cheio. Correu a lágrima como a tristeza numa enxurrada morna, lembrando, mais uma vez, que somos frágeis.
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