
[O texto que Mariana gostaria que tivessem escrito pra ela…]
A conheci numa tarde nublada em São Paulo.
Eu não soube sorrir quando a vi e ela não pode me abraçar com fluidez no instante de estreia. Entramos no museu para ver as languidezes das fotografias de Wim Wenders e as solidões em cada granulação das ampliações.
Ela andava distante, mais rápido que eu. Falava pra dentro, estava nervosa.
Não podia ler em seus olhos o que sentia, nem a forma como gostaria de ter as maçãs dos rosto seguras por minhas mãos. Não a ouvia bem. Sentia nada demais na primeira hora e meia, mas a avistava refletida no vidro das imagens como alguém que faz parte de um mundo hopperiano e, então, cavava uma saída nas janelas amplas do museu. Meu próprio quadro.
Ela é piegas e visivelmente temia parecer burra encadeando conceitos e impressões que despejava num tom monocórdio. Ela é diferente e tão igual a mim: Ouve sons que eu não gosto e vai a lugares que odeio. Faz fotografias e gosta de cachorros, mas não sabe sorrir mostrando os dentes como eu.
Usa unhas vermelhas, óculos de aros grossos – os quais provei -, os cabelos pra trás presos com uma tiara. Quando nos conhecemos ela trazia o rosto maquiado, mas não o batom que tanto gosto. E agora, dela – que pouco sei - já não posso esquecer ou me livrar, desdenhar sem querer.
Ela se tornou minha segunda “mariana”. Ocupou o posto da primeira que tinha cabelos descoloridos e lindo rosto, pouco mais de vinte anos. Ela é minha segunda e, ao contrario da primeira, não partiu meu coração, meus ossos, meus olhos. Minha segunda tentava construir algo, mesmo que fosse uma canção no meio da noite, da qual apropriava-se assim, de repente, por pouco mais de um minuto.
Ela, a minha “segunda”, é morena e me contou que já foi a segunda mariana de alguém e disse que sou seu primeiro-segundo. Primeiro “joão”, segundo “henrique”, completando que não queria o segundo pela segunda vez.
Ela, a “segunda” que agora já quero não tem porte de modelo, panca de artista, carro de bacana. Mas há um quê de melancolia em seus olhos, daquela melancolia que parece com saudades e resvala a tristeza. Daquela melancolia da qual não posso viver sem. Daquela melancolia pouco sóbria nas altas horas dos teatros.
A minha “mariana” se faz poeta em pequenos passos e me completa erroneamente, deixando pra trás algo que não me cabe. Sendo segunda se fez inédita e deixou um sentimento sorrateiro e constante que me enche como copo d’água, lenta e docemente. É igual a qualquer outra, desigual em tudo.
Ela me teme e se resguarda em postura fraternal e da sua boca pequena de lábio escondido eu tento ouvi-la, desejando com dificuldade as frases e sempre esperando pela próxima palavra em voz de barítono: Uma declaração de amor.
Nela é que me espelho nas manhãs sem quarto e longe, numa espécie de sussurro brando e espero que ela olhe para o céu paulistano se perguntando onde estou.