[arquivo]
Cortou os pulsos essa manhã. O sangue escorreu tão vagarosamente que sentia cada parte do corpo menos úmida. Narrador póstumo, deixou que as mãos fossem enfaixadas sem reclamar, mas depois do acontecido não conseguiu segurar o telefone quando a mãe ligou para perguntar se estava em algum plano futuro.
A boca não podia mover-se, mas os ouvidos ainda estavam vivos e capitavam a pergunta que veio indefinida e com tom de angústia. Não podia responder. O sangue vazava pelas válvulas coronarianas, pelas veias e artérias: Chu-áá. Na cartinha, o pedido: “Não rezem aves-marias e padres-nossos”. Pediu em uma nota, entre parenteses, que colocassem (uma música cor de tangerina) na hora do sepultamento. Para os próximos telefonemas, notícias em pílulas santinas.
Agora, cerca de meia hora passada, seus olhos detinham milhares de motivos para estar mais calmos. Sem pressa arrancou com as mãos vazias as pupilas. Como quando, cruel, rasgou uma nota de cinquenta para afrontar o avô, agora desperdiçava gota a gota seu sangue de despedida, de água, de louça, de ferrugem, de imigrantes, de torrentes em uma tentativa vaga de esconder os olhos. Tinha vergonha de que alguém, quem quer que fosse, lê-se os motivos tão mesquinhos.
[25 de setembro de 2004]
Cortou os pulsos essa manhã. O sangue escorreu tão vagarosamente que sentia cada parte do corpo menos úmida. Narrador póstumo, deixou que as mãos fossem enfaixadas sem reclamar, mas depois do acontecido não conseguiu segurar o telefone quando a mãe ligou para perguntar se estava em algum plano futuro.
A boca não podia mover-se, mas os ouvidos ainda estavam vivos e capitavam a pergunta que veio indefinida e com tom de angústia. Não podia responder. O sangue vazava pelas válvulas coronarianas, pelas veias e artérias: Chu-áá. Na cartinha, o pedido: “Não rezem aves-marias e padres-nossos”. Pediu em uma nota, entre parenteses, que colocassem (uma música cor de tangerina) na hora do sepultamento. Para os próximos telefonemas, notícias em pílulas santinas.
Agora, cerca de meia hora passada, seus olhos detinham milhares de motivos para estar mais calmos. Sem pressa arrancou com as mãos vazias as pupilas. Como quando, cruel, rasgou uma nota de cinquenta para afrontar o avô, agora desperdiçava gota a gota seu sangue de despedida, de água, de louça, de ferrugem, de imigrantes, de torrentes em uma tentativa vaga de esconder os olhos. Tinha vergonha de que alguém, quem quer que fosse, lê-se os motivos tão mesquinhos.
[25 de setembro de 2004]